As raízes míticas da fundação de Lisboa

Imagem criada em Canva pela autora do texto.

Odisseu, rei de Ítaca, um dos pais do sucesso na Guerra de Tróia, herói da Odisseia de Homero. Depois de ganhar a guerra, a sua única missão era regressar à sua família, mas ele não sabia que esta viagem, que prometia ser de duas semanas, iria demorar muito mais tempo. Visitando o país de Lotófagos, o ciclope Polifemo, o rei Éolo, os Lestrigões, Circe, a ilha das Sereias, Calipso, as ilhas dos Feácios, ele também chegou à Península Ibérica. Diz a lenda que ele foi o fundador da maior cidade do rio Tejo – Lisboa. 

Uma das fontes medievais mais antigas menciona a figura do explorador mítico descrevendo os primórdios da cidade da forma seguinte:

E dizem algũus que este logar foy pobrado despois que Troya foy destroyda a segunda vez e que a começou de pobrar hũu neto de Ulixes que avya esse meesmo nome Ulixes como o avoo; e que este morreo ante que fosse acabada de pobrar e que mandou a hũa sua filha que avya nome Boa que a acabasse; e que ella a acabou e que, depois que foy acabada, que ajuntou hũa parte do nome de seu padre ao seu e poslhe nome Lixboa.

(CINTRA, 1954: 22)

A Crónica Geral de Espanha de 1344 explica assim que, embora Odisseu veio para terras portuguesas, o próprio desenvolvimento de Lisboa foi cuidado pelos seus descendentes – um neto e uma bisneta – de cujos nomes deriva o nome da cidade. Esta relação alimenta o potencial da figura mítica que conduz ao desenvolvimento da lenda descrita nos tempos que se avizinham.

Mosaico de Ulixes no Museu Nacional do Bardo via Wikimedia Commons

Fernão de Oliveira, historiador e gramático português que viveu no século XVI, tinha uma perspetiva ligeiramente diferente sobre o viajante. Baseando-se nas obras do antigo geógrafo e historiador grego Estrabão, ele explica na História de Portugal que é impossível que terras tão ricas permaneçam subdesenvolvidas durante tanto tempo. Referindo-se à figura de Tubal, uma personagem conhecida do Antigo Testamento, o autor nega a possibilidade de fundar Lisboa tão tarde:

Estava perto donde Tubal aportou e assentou e mandou povoar outras terras muitas. Portanto, não é de crer que aqueles homens eram tão cegos que não viam a disposição deste lugar para ser habitado em tantos tempos, em especial, pois não há derredor de Lisboa sinal doutra habitação daquele tempo, onde se possa suspeitar que os naturais desta terra moravam antes que viesse Ulisses.

(OLIVEIRA, Séc. XVI: 360)

Apesar de questionar a opinião de outros escritores que dedicam textos ao assunto, ele desenvolve a lenda, analisando-a à sua maneira, mostrando um ponto de vista diferente do medieval.

A ideia de começos míticos relacionados com o rei de Ítaca tem sido usada muitas vezes como motivo em várias obras, não se limitando às crónicas. A sua história e influência no nascimento de Lisboa apareceu, entre outros nos textos como: Monarchia Lusytana (1569-1617) de Frei Bernardo de Brito, Os Lusíadas (1572) de Luís Vaz de Camões, Ulissipo (1640) de António de Sousa de Macedo, Mensagem (1934) de Fernando Pessoa, A Cidade de Ulisses (2011) de Teolinda Gersão, e muitos outros. Odisseu continua a ser um símbolo importante na literatura e no imaginário. Interpretações da lenda da fundação de Lisboa foram criadas ao longo dos séculos por muitos autores e até aos dias de hoje há quem tenha interesse na narrativa. Este fenómeno prova que a sua história ainda está viva.

Bibliografia:

CINTRA, Luís Filipe Lindley (1954) Crónica geral de Espanha de 1344: edição crítica do texto portugues. Vol. II. Lisboa, Academia Portuguesa da História.

MONIZ, António Manuel de Andrade (2003) “Os mitos de Hércules e de Ulisses na literatura portuguesa”. Estudios Neogriegos. Boletín de la Sociedad Hispánica de Estudios Neogriegos (Sociedad Hispánica De Estudios Neogriegos). Anexo 1: 11-28. http://ojs.shen-org.es/index.php/estneogr/article/view/2/1 [10.01.2022].

OLIVEIRA, Fernando (Séc. XVI) História de Portugal. Em: FRANCO, José Eduardo (2000) O Mito de Portugal. A primeira história de Portugal e a sua função política. Lisboa, Roma Editora. 

PARANDOWSKI, Jan (1992) Mitologia. Wierzenia i podania Greków i Rzymian. Londyn, Puls.

INFOPÉDIA: “Estrabão”. https://www.infopedia.pt/$estrabao [10.01.2022].

INFOPÉDIA: “Fernão de Oliveira”. https://www.infopedia.pt/$fernao-de-oliveira [10.01.2022].

INFOPÉDIA: “Teolinda Gersão”. https://www.infopedia.pt/$teolinda-gersao [10.01.2022].

RTP Ensina: “Porque Teolinda Gersão escreveu A Cidade de Ulisses”. https://ensina.rtp.pt/artigo/porque-teolinda-gersao-escreveu-a-cidade-de-ulisses/ [10.01.2022].

Google Arts & Culture: “Tubal”. https://artsandculture.google.com/entity/m026n5w?hl=pt [10.01.2022].

Projecto Vercial: “António de Sousa Macedo”. http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/amacedo.htm [10.01.2022].


Trabalho apresentado à disciplina de Linguagem e a mídia: texto e discurso, ministrada pelo professor Samuel Figueira Cardoso – Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da Universidade de Varsóvia, semestre de inverno 2021/2022.

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Estudante do terceiro ano de Estudos Portugueses no Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade de Varsóvia. Gosta de ler livros, jogar jogos de computador e criar numerosas listas de canções em Spotify.

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