Exclusão e marginalização da literatura portuguesa dos séculos XVII e XVIII Sociedade exposta – obra satírica de Nicolau Tolentino de Almeida

Atualmente, a produção literária portuguesa dos séculos XVII e XVIII está votada ao esquecimento, sofrendo um isolamento cultural que a mantém distante do radar da consciência literária da nação. Existe uma ideia errada, um estereótipo perpetuado ao longo dos anos, de que aparentemente não se criou nada de interessante, de que as obras literárias produzidas durante os séculos XVII e XVIII são irrelevantes ou refletem um período de atraso cultural em Portugal. Muitas vezes, estas obras são consideradas obsoletas ou de interesse exclusivamente histórico, o que as exclui dos debates literários contemporâneos e das prateleiras das livrarias, e este difícil acesso sustenta hoje este isolamento. Uma exceção notável a essa tendência é Padre António Vieira, cuja obra ainda é lida e reconhecida nas escolas, destacando-se como um dos poucos autores do barroco a alcançar o reconhecimento. É, no entanto, um dos poucos, se não o único autor deste período a encontrar um lugar no cânone escolar. E enquanto nomes como Bocage ou marquesa de Alorna ainda ecoam no espaço público, nomes como Francisco Manuel de Melo, António Serrão de Castro ou António Dinis da Cruz e Silvapermanecem desconhecidos na sombra do esquecimento a que a crítica romântica os condenou. Sem uma ampla divulgação e disponibilidade, as obras dos séculos XVII e XVIII têm dificuldade em alcançar novos públicos e permanecem confinadas a um círculo restrito de especialistas e entusiastas. Tudo isto resulta numa falta de estudos e pesquisas dedicados à literatura portuguesa deste período. Com pouca atenção académica e crítica, essas obras permanecem à margem do cânone literário, deixadas de lado em favor de temas e períodos mais populares e amplamente estudados. Uma das vítimas deste círculo vicioso de estereótipos e de ignorância da produção literária portuguesa destas épocas é Nicolau Tolentino de Almeida.

Nicolau Tolentino (1740-1811), natural de Lisboa, é um escritor marcante do século XVIII que deixou uma rica obra literária, bastante desconhecida hoje em dia. Ele representa as ideias do iluminismo sendo a voz do senso comum. A sua vida, marcada por «altos e baixos», merece um livro ou, pelo menos, um artigo separado: de origem nobre, viveu nas classes altas, criando e partilhando a sua poesia. Nomeado cavaleiro fidalgo da Casa Real, em 1790, não podia subir mais a sua ambição. No entanto, Tolentino enfrentou períodos de extrema pobreza, chegando a vender o seu cavalo devido às dificuldades financeiras (Tolentino, pref. de Lapa, 1960: VII-XII). De  professor régio de Retórica em Lisboa e poeta publicado a um pobre esfomeado e solitário – estes contrastes entre o sucesso e a adversidade destacam a complexidade da sua trajetória, tornando a sua biografia fascinante. Iremos, porém, descobrir a sua obra que integra composições, sobretudo, de temática satírica, privilegiando, como formas, o soneto e as quintilhas.

A obra de Nicolau Tolentino caracteriza-se pela sátira que transfigura a realidade através do humor, da ironia e do sarcasmo, expondo os males de Portugal e a sua incapacidade de evoluir material e culturalmente (Nogueira 2021: 132). Contextualizada num período de iluminismo, a sua sátira visou construir novas estruturas mentais, culturais e sociais, ao criticar os comportamentos ridículos e viciosos. Tolentino rejeita a perceção comum de sátira como libelo público difamatório, defendendo que a verdadeira sátira tem uma função pedagógica, buscando emendar erros através do equilíbrio entre instrução e entretenimento. Inspirado por Horácio (Nogueira 2021: 132), Tolentino recorre ao humor como uma ferramenta para «divertir e instruir», criticando os costumes sem atacar indivíduos específicos[1]. Vejamos as personagens sintetizadas da sua obra:

  • o nobre enfatuado e ignorante;
  • o clérigo lascivo e supersticioso;
  • o poeta gongórico e neoclássico;
  • o jovem namoradeiro;
  • a mulher seduzida e sedutora;
  • o jogador compulsivo;
  • o médico incompetente;
  • o velho e a velha que escondem a decadência do corpo.

A abordagem inclusiva de Tolentino revela as falhas e peculiaridades de diversas caráteres, promovendo uma crítica abrangente que espelha as ideias iluministas e o senso comum. O poeta descreve factos e situações do quotidiano com distanciamento, onde o eu poético mantém-se neutro e objetivo, oferecendo uma visão cinematográfica e impessoal. Vejamos um exemplo:

O colchão dentro do toucado

Chaves na mão, melena desgrenhada, A
Batendo o pé na casa, a Mãe ordena B
Que o furtado colchão, fofo e de pena, B
A filha o ponha ali ou a criada. A

A filha, moça esbelta e aperaltada A
Lhe diz co´a doce voz que o ar serena: B
“Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena! B
Olhe não fique a casa arruinada …” A

“Tu respondes assim? Tu zombas disto? C
Tu cuidas que, por ter pai embarcado, D
Já a mãe não tem mãos?” E dizendo isto, C

Arremete-lhe á cara e ao penteado. D
Eis senão quando (caso nunca visto!) C
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado. D

Nicolau Tolentino, em Lima 1970: 64-65

Este soneto é considerado um exemplo de poesia cómico-fantástica (Pinto 2018: 185). Tolentino satiriza o uso de penteados altos, moda da época, através de uma situação absurda onde um colchão desaparecido é encontrado dentro do toucado de uma jovem. Tolentino faz uso de vários recursos estilísticos para alcançar o seu objetivo satírico. O título do poema, «O colchão dentro do toucado», emprega a hipérbole para chamar a atenção do leitor e sugerir a natureza absurda e exagerada do tema abordado. A adjetivação nas duas primeiras estrofes («melena desgrenhada», «moça esbelta e aperaltada») acrescenta um tom humorístico e caricatural às personagens. No poema destaca-se rimas interpoladas (abba abba) e cruzadas (cdc dcd). Este uso variado da métrica e rimas contribui para um ritmo dinâmico e fluido. O estilo é desafetado e oral, a linguagem é simples e coloquial, quase prosaica, facilitando a compreensão e o envolvimento do leitor enquadrando-se também na estética do arcadismo.

A ação é estruturada em três partes: a introdução do problema do desaparecimento do colchão, o diálogo entre a mãe e a filha, e a revelação final sobre onde estava o colchão. Esta divisão contribui para a construção de um pequeno enredo dentro do poema, que se desenrola de maneira clara e coesa. Tolentino introduziu também os diálogos, dando uma voz ativa às suas personagens. Evidencia-se assim a natureza narrativa da sua obra. No soneto, observa-se uma narração na terceira pessoa, com um poeta-narrador (que é um tipo da voz pouco comum na poesia onde reina o eu poético) impessoal e quase invisível, no entanto, ele revela-se ao exprimir uma opinião através de um comentário que é uma exclamação «caso nunca visto!» expressando a surpresa e a incredulidade que qualquer pessoa comum sentiria diante de tal absurdo (Pinto 2018: 193). Assim, ao destacar a excecionalidade do evento, o poeta-narrador visa torná-lo mais verosímil. Isso ocorre porque, ao reagir de maneira que qualquer pessoa comum reagiria, ele faz com que o leitor se identifique com a surpresa e o humor da situação.

Tolentino ridicularizou não apenas a moda dos penteados altos, mas também o comportamento superficial e vaidoso das mulheres que aderiam a essa moda. A sátira estende-se, no entanto, a uma crítica mais ampla da sociedade. A relação entre a mãe e a filha no poema é um microcosmo das tensões sociais e geracionais da época. Através desta interação, o poeta explora a dinâmica familiar e o conflito entre as gerações. A mãe, com a sua seriedade e controle, e a filha, com a sua leviandade e despreocupação, personificam um conflito maior entre os valores estabelecidos e a superficialidade emergente. Tolentino oferece uma visão perspicaz e humorística das interações humanas e das falhas sociais do seu tempo. É através do riso que o poeta desconstrói os modelos morais e comportamentais. Ao expor os exageros e as futilidades da moda e do comportamento social, promove uma reflexão sobre os valores da época.


[1] Contudo, excecionalmente, critica Pombal pelo nome, descrevendo-o quase como o mal encarnado. No entanto, por vezes, refere-se diretamente a indivíduos específicos, geralmente aos seus patronos, compondo homenagens a figuras em posições de poder de cuja proteção precisava.


BIBLIOGRAFIA:

Lima, Augusto Pires de (1970) Obras selectas de Nicolau Tolentino. Porto, Domingos Barreira – Editor. Livraria Simões Lopes.

Nogueira, Carlos (2021) «Queima essas sátiras frias, / Faltas de siso e conselho»: a sátira em Nicolau Tolentino. Cincinnati Romance Review 51, pp. 131–145.

Pinto, Rodrigo Gomes de Oliveira (2018) «A Mímesis Fantástica na Obra Satírica de Nicolau Tolentino e o VT Photographia Poesis». Desassossego, vol. 10, no. 19, pp. 185-202.

Tolentino, Nicolau ([1801], 1960) Sátiras. 2.ª ed. Selecção, prefácio e notas de Rodrigues Lapa. Lisboa, Textos Literários.

Guiada por uma paixão pela cultura europeia, membro de uma pequena família internacional de amigos de todos os cantos do mundo, é licenciada e mestranda em Filologia Portuguesa. Atualmente, espera começar o segundo mestrado, desta vez, em História, com especialização em Antropologia Histórica. Estudou na Universidade de Varsóvia e na Universidade de Lisboa. Sempre a viver entre as suas duas terras - Polónia e Portugal.

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