O Ensaio sobre a cidade despertada

Desde o início da epidemia, os leitores sul-coreanos começaram a reabrir os seus olhos para a literatura. Por que se voltam eles para os livros? Por que razão recomeçam a ler a obra de Saramago, aquela que mostra a realidade mais terrível? É o que iremos ver neste artigo, em que tentarei explicar o regresso dos leitores sul-coreanos ao romance O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago. 

Antes do início da pandemia, o interesse geral pelos livros era notavelmente baixo na Coreia do Sul. Conforme a Pesquisa Nacional de Leitura de 2019 do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da República da Coreia, apenas 55,7% dos adultos responderam que leram, pelo menos, um livro em 2019[1]. Adivinhem quantos livros leem por ano? Não se surpreendam. 7,5 livros, incluindo audiolivros[2]. No mesmo ano, 40% dos portugueses leram apenas um livro por ano[3], enquanto, os leitores brasileiros leram em média, dois livros por ano[4]. Se compararmos estas duas realidades, os leitores sul-coreanos leem muito mais, no entanto, do ponto de vista dos cidadãos sul-coreanos, esta média é muito baixa. Literalmente, os sul-coreanos raramente leem livros. Pelo menos, há males que vêm por bem. O tempo médio que os sul-coreanos passam a ler livros por dia aumentou de 23,4 minutos para 31,8 minutos nos últimos dois anos[5]. Porque terá isto acontecido?

De acordo com os resultados da pesquisa, há duas razões principais que podemos apontar. Primeiro, existem muitas outras coisas interessantes: cinemas, smartphones e serviços de streaming como o Netflix ou o Youtube atraem-nos obsessivamente. A popularidade declinante dos livros, especialmente dos livros em papel, não se limita apenas à Coreia do Sul. É uma maldição global da evolução tecnológica. A segunda razão é a falta de tempo para ler. Em 2017, a média de horas de trabalho por ano do país fixou-se nas 2024 horas. Este registro foi o segundo mais longo entre os registros dos 36 países da OCDE (a média de horas de trabalho por ano dos 36 países da OCDE foi de 1746 horas[6]). Desde 2018 que o governo sul-coreano se esforça por reduzir a duração média da semana de trabalho. Graças a isso, as pessoas sul-coreanas poderiam ler, pelo menos, 8 minutos a mais do que antes.

Após o início da pandemia, que chegou do nada, as pessoas começaram a pegar mais em livros. Os romances distópicos se tornaram um de seus gêneros preferidos. Entre eles, O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, ganhou enorme popularidade novamente, bem como A Peste, de Albert Camus. O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, foi publicado na Coreia do Sul pela editora Hainaim (해냄출판사) em 15 de dezembro de 1998. Foi traduzido por Youngmok Jung (정영목), e revisado em dezembro de 2019 para comemorar a impressão centésima do romance. Ambos eram dos livros mais vendidos de todos os tempos na Coreia do Sul, e com o aparecimento da doença conseguiram reaparecer na lista dos cem livros mais vendidos no país. Em março do corrente ano, no site Kyobo Book, A peste, de Albert Camus, ocupava o segundo lugar dos livros mais populares na secção de romance, enquanto, no site Aladine, O Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, ocupava o quadragésimo quinto lugar dos livros mais vendidos na secção de romance, poesia e peça. O Kyobo Book e o Aladine são das cincos maiores livrarias na Coreia do Sul.

Por que razões o mundo terrível de Saramago conseguiu despertar os interesses do povo sul-coreano?

Há pontos em comum entre o romance e a situação atual do país. O surto da crise começou sem aviso prévio em ambos. O vírus da Covid-19 se espalhou entre as pessoas rapidamente, assim como a cegueira. A feia natureza humana tirou a sua máscara enquanto o povo enfrenta situações extremas. Pessoas irresponsáveis que viajam independentemente das consequências, políticos usando a situação para vencer as eleições para a assembleia nacional, empresas que escondem máscaras para ganhar mais dinheiro, todos eles se parecem com os cegos que tentam tirar vantagem da situação no romance. Não há respeito pelos outros seres humanos, apenas há uma identidade humana que perdeu valor e ética. Ainda assim, sob circunstâncias difíceis, existem pessoas que têm um sentido de solidariedade e estão dispostas a sacrificar-se para salvar os outros como a mulher do médico e o seu pequeno grupo. Uma reflexão brutal sobre a natureza humana e um apelo para recuperar a nossa moralidade e humanidade levaram os leitores sul-coreanos a refletirem profundamente sobre si mesmos e sobre a sociedade hoje em dia.

Em 1 de junho do corrente, no total, a República da Coreia registra 11.503 casos de Covid-19 e 271 vítimas mortais, mas 10.422 pessoas já conseguiram recuperar[7]. Com base nas tendências atuais, do meu ponto de vista, o fim da crise não está longe, e a vida irá recomeçar em breve[8]. A pandemia revelou-nos o que tivemos e o que perdemos. Será que o povo sul-coreano será capaz de aproveitar esta oportunidade de recomeço e continuar a ler ou, depois de passada esta crise, irá decidir fechar os livros novamente?

Esperarei a resposta, segurando um livro na mão.


[1] Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da República da Coreia (문화체육관광부), Pesquisa Nacional de Leitura de 2019 (2019년 국민독서실태조사), p.73, publicado em 11 mar. 2020, Disponível em: https://www.mcst.go.kr/kor/s_policy/dept/deptView.jsp?pSeq=1776&pDataCD=0406000000&pType=04, Acesso em 4 abr. 2020

[2] Ibid., p.83

[3] Rádio Renascença, Portugueses costumam ler um livro por ano, publicado em 10 fev. 2020, Disponível em: https://rr.sapo.pt/2020/02/10/o-mundo-em-tres-dimensoes/portugueses-costumam-ler-um-livro-por-ano/artigo/181496/, Acesso em 5 mai. 2020

[4] Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Dia do Leitor: brasileiro lê, em média, apenas dois livros por ano, publicado em 7 jan. 2020, Disponível em: https://tvbrasil.ebc.com.br/reporter-brasil/2020/01/dia-do-leitor-brasileiro-le-em-media-apenas-dois-livros-por-ano, Acesso em 5 mai. 2020

[5] Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da República da Coreia (문화체육관광부), Comunicado de imprensa sobre os resultados da Pesquisa Nacional de Leitura de 2019 (2019년 국민 독서실태 조사 결과 발표 보도 자료), publicado em 11 mar. 2020, Disponível em: https://www.mcst.go.kr/attachFiles/viewer/skin/doc.html?fn=20200311084859452680929061_TCS_SCHMNG20200311084914444641.hwp&rs=/attachFiles/viewer/result/press/, Acesso em 4 abr. 2020

[6] OECD.Stat, Average annual hours actually worked per worker, Disponível em: https://stats.oecd.org/Index.aspx?DataSetCode=ANHRS, Acesso em 8 abr. 2020

[7] Ministério da Saúde e Bem-Estar da República da Coreia (보건복지부), Doença da Coronavírus-19, República da Coreia (코로나바이러스감염증-19), Disponível em: http://ncov.mohw.go.kr/en/, Acesso em 1 jun. 2020

[8] Em 6 de maio, a República da Coreia afrouxou oficialmente as regras de distanciamento social. Medidas draconianas como proibições de viagens, fechamento da fronteira e de comércio, ou confinamento total nunca foram adotadas no país.

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Primeiro ano de mestrado de Estudos Luso-Brasileiros da Universidade de Varsóvia (ano letivo 2019/2020), graduado em mestrado de Relações Internacionais na mesma universidade. Correspondente na Polónia para o KOFICE (Korea Foundation for International Culture Exchange).

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