“Por onde (re)começar?”: o pensamento crítico no fazer científico

Todos os dias precisamos tomar diversas decisões, sejam elas simples ou mais complexas. Tais decisões vão desde a simples escolha dos alimentos que compõem o café da manhã, ou a rota da vez para a universidade. Há outras mais complexas, como os materiais didáticos, ou o tipo de teste para a avaliação final de um leitorado. Afinal, não é tarefa fácil, enquanto professor de língua portuguesa, passo mais tempo a pensar nas sequências de aprendizagem e nas escolhas dos itens que compõem uma sequência (uma imagem, excertos de textos e partes de vídeos) – num exercício de reflexão e autorreflexão-, do que nas duas horas que me são reservadas para pôr em prática todo aquele plano, monitorado, minuciosamente pensado para você, caro aluno, falar português.

Na esteira dessas decisões complexas, ainda podemos pensar nas notícias que chegam a todo momento pela televisão, redes sociais, mensagens provenientes das diversas páginas de notícias e pelos comentários partilhados por aqueles que fazem parte da nossa bolha digital. Como podemos filtrar essas informações? Num ambiente universitário, alguns desses exemplos merecem uma resposta mais elaborada, ao mesmo tempo, podem surgir outras perguntas: Com que frequência isso acontece em determinado contexto? De que maneira a produção e a leitura desse conteúdo influencia/muda comportamentos sociais e práticas discursivas? Há muitos exemplos que eu poderia dar, porém concentro as linhas que se seguem a discorrer sobre a noção de Pensamento Crítico e como esse tipo de pensamento está intrinsicamente ligado às nossas atividades na universidade.

O pensamento crítico – Pois bem, com muitos conceitos ora concomitantes ora divergentes, uma noção interessante nos remete aos trabalhos de Dewey (1910). Este autor, num primeiro momento chamou-o de pensamento reflexivo, que poderia ser definido como uma consideração ativa, consideração persistente e cuidadosa de qualquer crença ou suposta forma de conhecimento à luz dos fundamentos que a sustentam, e as demais conclusões a que tende (Dewey 1910: 6; 1933: 9). Já Robert Ennis (1991) define o pensar criticamente como “pensamento racional e reflexivo que está focado em decidir o que acreditar e fazer”. Robert Glaser (1941, 5-6 – tradução minha) apresenta três elementos principais que envolve o pensamento crítico: i) uma atitude de estar disposto a considerar de uma maneira reflexiva os problemas e assuntos que vêm dentro do conjunto das experiências de alguém, ii) o conhecimento dos métodos de investigação lógica e raciocínio, e iii) alguma habilidade na aplicação desses métodos.

É possível afirmar que o pensamento crítico é uma técnica para tomar decisões, analisando de forma holística a situação. Para que se tomar uma decisão de forma racional, analisando ceticamente o contexto, é preciso a partir de um conjunto de procedimentos reunir informação de forma objetiva e coerente, fazer proposições e tirar conclusões, por meio de síntese. Por exemplo, qual o tipo de dieta que devo seguir antes das provas finais (exames) do semestre? Por que devo fazer essa escolha e não outra Num primeiro momento, essas perguntas parecem ter uma pronta resposta ou uma resposta “fácil”. No entanto, para um pensador crítico, é necessário pensar nas consequências que as ações tomadas podem ter a curto, médio e longo prazo, mesmo que a resposta esteja 100% adequada (não usarei o termo certo ou errado, porque, como sabemos, em muitas decisões o ponto de vista tem grande influência, então é de se ter cuidado nos termos utilizados e as implicações que o termo tem no texto ou discurso (co)construído).

Enquanto pensador crítico, é necessário deixar as crenças e as preferências de lado; verificar a fiabilidade da informação. Vamos a um exemplo de Linguística, puxando a brasa à minha sardinha. Nos estudos de Ferdinand de Saussure ([1916] 2008), no livro Curso de Linguística Geral, este autor afirma que “o ponto de vista cria o objeto de estudo”. Esta afirmação nos leva ao que seria a principal característica dessa ciência, isto é, diferentemente das outras ciências, para o linguista seria como se não existisse um objeto de estudo já definido sobre as línguas, cabendo um olhar científico (observação, hipóteses, teorias etc.), racional, cético tomar lugar. Bem, isto é interessante porque nos leva diretamente à noção adotada pelos autores supracitados, para definir o conceito de pensamento crítico. Isto é, um processo ativo e não um processo passivo na produção do conhecimento para a tomada de decisão.

As nossas decisões e as escolhas tomadas no dia a dia na universidade, no trabalho ou em determinado grupo social não são feitas de forma passiva. Para exercitar a técnica do pensamento crítico é preciso (reunir as fontes de) informação, saber se são confiáveis, fazer perguntas sobre os dados e sobre suas próprias preferências, analisar de forma cuidadosa as implicações dessas informações e preferências em exemplos práticos (ex.: café ou chá preto ara aumentar a concentração nos estudos; os textos escolhidos para a revisão de literatura), explorar os pontos de vistas são alguns dos mecanismos, algumas das abordagens que precisam ser adotadas no dia a dia, quando se aplica a técnica do pensamento crítico.

Em contexto educacional, Scheffler (1960: 19) defendeu uma noção ligada ao ensino eficiente, isto é, este tipo de pensamento tem uma “definição programática”, isto porque se espera que o aluno, o pesquisador, futuro cientista, a partir das informações dadas pelos professores, comecem a “pensar por si mesmos”. Nesta mesma linha de raciocínio, sobre o trabalho dos professores, podemos citar o educador e pesquisador brasileiro Paulo Freire, reconhecido internacionalmente por seu trabalho com a alfabetização de adultos, com a chamada pedagogia crítica, que defendia que “não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino.” (1996: 14). Num artigo de 2018, David Hitchcock cita Freire (1987) para exemplificar que a crítica conduzida por uma ideologia política ou religiosa dogmática não é pensamento crítico; isto porque o autor brasileiro utilizava o termo em um sentido mais politicamente carregado que inclui não apenas reflexão, mas também ação revolucionária contra a opressão. Este ponto é contestado, e não aprofundarei esta questão neste texto. Hitchcock recorrendo a Dewey (1910), apresenta também exemplos de pensamentos não críticos, a saber; a derivação de uma conclusão de dados fornecidos usando um algoritmo, a aceitação imediata de uma ideia que se sugere como uma solução para um problema e outros.

Até aqui vimos que o pensamento crítico está ligado a resoluções de problemas mais simples ou complexos de forma cuidadosa, holística, a partir de algumas etapas de análise.

O pensamento crítico na universidade – Qual a relação do pensamento crítico e a produção de conhecimento? Como o pensador crítico utiliza esse tipo de pensamento na pesquisa científica nos diferentes níveis de formação (licenciatura, mestrado e doutorado, por exemplo)? Essas perguntas podem surgir em qualquer disciplina em qualquer universidade – embora essas indagações sejam mais frequentes em disciplinas de metodologia científica, quando estas aparecem nos programas de estudos. Nos meus primeiros passos na universidade, as perguntas, as dúvidas e o medo de errar eram constantes. Com o passar dos anos, tomando uma posição interativa do discurso, historicamente e socialmente situada, e adotando uma noção da escrita como um processo e não como um produto, alguns desses sentimentos deram lugar ao método científico e a dúvida, estes força motriz da ciência.

Lembrando do que já foi discutido nos parágrafos anteriores a respeito do processo ativo de pensar criticamente, é momento de focar a nossa discussão na síntese. Após reunir as informações, examinar as fontes dessa informação, deve-se sintetizar as informações, combinar os elementos (ideias, argumentos, pontos de vistas, teorias, modos de aprender e fazer, etc.) numa única ideia. É na universidade que este tipo de técnica encontrará o lugar ideal para refletir sobre o objeto estudado. Neste sentido, pensar criticamente nos levará diretamente ao nosso argumento ou tese principal, a ser defendida diante de um júri de especialistas.

Tenhamos, como exemplo, o trabalho de fim de curso de mestrado: temos uma pergunta de pesquisa, proposição ou hipótese; definimos quais são os nossos objetivos e procedimentos metodológicos para encontrar a resposta a pergunta; apresentamos e discutimos os dados (os achados) e fazemos nossas considerações finais. Para um empreendimento como este, é necessário reunir informações de estudos anteriores (revisão de literatura), e encontrar uma lacuna no tema pesquisado, isto é, a partir da reunião das fontes confiáveis, combinada com análise do objeto e comparação dos estudos anteriores, tecemos nossa síntese empregando o nosso pensamento crítico. Grosso modo, esta comparação não corresponde fielmente às etapas de um projeto de pesquisa. Contudo, nos dá a oportunidade de aproximar a noção de pensamento crítico do trabalho científico, ou melhor, da nossa própria pesquisa.

Para um pesquisador com cinco ou dez anos de carreira, talvez seja mais fácil elaborar esta comparação, mas ainda assim, faço-a porque entendo que esta técnica de tomada de decisões é fundamental para o desenvolvimento da pesquisa (em curso). Por fim, entendendo a pesquisa como um processo, importa também elaborar rotinas de leitura e escrita. Além disso, respeite seu tempo, converse com os amigos e os pares sobre o tema estudado – esse exercício pode ajudar nessa caminhada.


Anderson, Lorin W., David R. Krathwohl, Peter W. Airiasian, Kathleen A. Cruikshank, Richard E. Mayer, Paul R. Pintrich, James Raths, and Merlin C. Wittrock (2001): A Taxonomy for Learning, Teaching and Assessing: A Revision of Bloom’s Taxonomy of Educational Objectives. New York: Longman.

Dewey, John (1933): How We Think: A Restatement of the Relation of Reflective Thinking to the Educative Process. Lexington: D.C. Heath.

Dewey, John 1910: How We Think. Boston: D.C. Heath. [Dewey 1910 available online]

Ennis, Robert (1991): “Critical Thinking: A Streamlined Conception”, Teaching Philosophy, 14(1): 5–24. doi:10.5840/teachphil19911412

Freire, Paulo (1996): Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Freire, Paulo. (1987). Pedagogia do Oprimido. 17ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Hitchcock, David (2018): “Critical Thinking”, The Stanford Encyclopedia of Philosophy, Edward N. Zalta (ed.), (https://plato.stanford.edu/archives/fall2018/entries/critical-thinking/). consulted in 22.03.2020.

Saussure, Ferdinand. ([1916] 2008): Curso de linguística geral. São Paulo: Editora Cultrix.

Scheffler, Israel (1960):  The Language of Education. Springfield: Charles C. Thomas.

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Doutorando em Linguística e docente de Língua Portuguesa e Linguística na Universidade de Varsóvia. Aprendiz de cozinheiro e interessado em boas narrativas.

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