«Tudo na vida é um inconcebível acaso». Entrevista com Fernando Cunha

Hoje tenho o privilégio de conversar com Fernando Cunha de Sá e falaremos sobre o seu percurso poético, as suas influências e, em particular, sobre a sua relação com a poesia polaca que se reflete fortemente na sua obra poética. Um dos focos principais da nossa conversa será o seu recente livro de poesia, Outro instante, de 2023, que estabelece um diálogo literário e intertextual com a obra Instante (Chwila em polaco) da vencedora do Prémio Nobel de Literatura, Wisława Szymborska, e exploraremos as inspirações por detrás deste tom poético e o impacto de Szymborska na sua escrita e como a poesia pode transcender fronteiras culturais.


Justyna Żmijewska: Então, começo por perguntar sobre a sua escolha de dialogar com a poesia de Szymborska. Imagino que criar este vínculo literário não tenha sido por acaso. No primeiro poema de Outro instante, diz que existem algumas coincidências. O que na voz poética da Wisława Szymborska ressoa mais consigo, levando-o a estabelecer este diálogo literário?

Fernando Cunha de Sá: Realmente, tudo na vida é um inconcebível acaso. Esta ideia, aliás, é bastante szymborsquiana. Começa com uma seleção e tradução de poemas de Szymborska com o título Um inconcebível acaso. E quem fez esta excelente seleção de poemas e tradução foi a Teresa Fernandes Swiatkiewicz. E o inconcebível acaso, na realidade, foi assim: Szymborska apareceu na minha vida como poeta, temporalmente no período subsequente ao Covid-2019 e ao isolamento que ele provocou. Foi uma época particularmente criativa para os artistas em geral e para os poetas em especial. Porquê? Porque o isolamento e o silêncio que foram impostos a cada um de nós propiciou uma leitura atenta e uma leitura de espírito aos outros. Começou o meu diálogo interior com a poesia de Wisława Szymborska no seu livro, O instante. Esse livro, O instante, foi traduzido em português, já há uns tempos, por uma professora polaca, Elżbieta Milewska, já infelizmente falecida, e também por Sérgio Neves. Eu tinha comigo, no sítio onde eu estava isolado esta edição de O instante e ao lê-la, alguma coisa ficou dentro de mim. E essa alguma coisa traduziu-se em certa altura num poema que foi uma conversa com um poema idêntico da Szymborska, uma espécie de pergunta-resposta, sem que houvesse inicialmente o propósito de fazer um diálogo. Foi uma coisa que aconteceu, alguém que encontramos e que desperta o nosso interesse para conversar. Mas este interesse manteve-se e, passados uns dias, umas semanas, já não me recordo bem – outra conversa surgiu, com outro poema. E assim sucessivamente, até que eu tomei a consciência de que estava, não sei se era um projeto, um projeto inconsciente e esse projeto era o quê? Era exatamente criar, passados tantos anos, um Outro instante, conjugado com aquele, já dado algumas dezenas de anos atrás da Wislawa Szymborska, e foi assim que sucedeu esse livro.

Vamos ver se eu consigo ler um poema que não está neste livro Outro instante, mas que retoma a conversa com a Szymborska e tem a consciência do acaso nas nossas vidas e nas nossas obras, e ainda é uma conversa com a poetisa. O poema chama-se: «Acaso».


«Acaso»

Acaso singular foi conhecermo-nos sem nos encontrar,
os dois olhando a mesma estrela há muito desaparecida,
nenhum de nós usando binóculos, nem telescópio.

Acaso não menos singular é a cor dos teus olhos
ser exatamente a minha preferida e não igual à minha.
Acaso singular é o de nos encontrarmos depois,

procurando o mesmo livro na mesma biblioteca
e de nos vermos lado a lado, tão de perto.
E trocar o loiro dos teus cabelos pelo cinzento prateado,

já cinzento já prateado dos meus,
sem que isso faça a mínima diferença a quem quer que seja.

Pois é fácil confundir cristal com diamante,
ouro com latão, o sábio com o louco,
o incerto pelo certo, tu ou eu com qualquer outro.


Acaso singular foi conhecermo-nos sem nos encontrar,

os dois olhando a mesma estrela há muito desaparecida,

nenhum de nós usando binóculos, nem telescópio.

Acaso não menos singular é a cor dos teus olhos

ser exatamente a minha preferida e não igual à minha.

Acaso singular é o de nos encontrarmos depois,

procurando o mesmo livro na mesma biblioteca

e de nos vermos lado a lado, tão de perto.

E trocar o loiro dos teus cabelos pelo cinzento prateado,

já cinzento já prateado dos meus,

sem que isso faça a mínima diferença a quem quer que seja.

Pois é fácil confundir cristal com diamante,

ouro com latão, o sábio com o louco,

o incerto pelo certo, tu ou eu com qualquer outro.

JŻ: Gostei muito do seu poema.

FC: Este tema do acaso, que é tratado por Szymborska de uma maneira tão profunda e tão, francamente, genial, é aquilo que acontece na vida das pessoas. Como ser humano, cada um de nós tem um percurso que não está inteiramente, só em pequena parte diria, programado por nós próprios, pois a vida vai-nos levando para algum lado que não é completamente esperado, mas que está ao nosso alcance… construir a partir de um certo lugar.

JŻ: Sim, então podemos dizer que foi um acaso feliz e que também foi um caminho, um processo para se estabelecer este diálogo.

FC: Sim, um acaso muito feliz, sobretudo, pelo encontro de uma identidade poética. Se me é permitido dizer isto com humildade, não é? Como eu digo nesse poema, não tenho dimensão, senão a do meu atrevimento de dialogar com uma poetisa como Szymborska, com a profundidade e também com o reconhecimento universal da sua valia. Se achar bem, irei exemplificar esse diálogo convergente ou divergente que existe entre o Instante e o Outro instante, e tomava, como exemplo, um poema da Szymborska chamado em português «O silêncio das plantas», e depois, iria buscar o meu poema também intitulado «O silêncio das plantas» para vermos como é que é, como é que se construiu espontaneamente esse diálogo. Aqui vai o poema da Szymborska:


«O silêncio das plantas»

O relacionamento unilateral entre mim e vocês
não vai mal de todo.

Sei o que são folhinhas, pétalas, espigas, pinhas, caules
e o que se passa convosco em Abril e Dezembro.

E embora a minha curiosidade não seja correspondida,
inclino-me especialmente sobre umas
e ergo a cabeça para outras.

Para mim, vocês têm nomes:
ácer, bardana, amémona,
urze, zimbro, visgo, miosótis,
já eu, para vocês, nenhum.

Viajamos juntas.
E nas viagens conversa-se.
Trocam-se opiniões, nem que seja sobre o tempo
ou sobre as estações velozmente atravessadas.

Temas não faltariam, pois muito temos em comum.
Estamos ao alcance da mesma estrela.
Fazemos sombra, regidas pelas mesmas leis.
Tentamos saber algo, cada uma à sua maneira
e o que não sabemos também nos assemelha.

Perguntem, tentarei esclarecer-vos:
o que é ver com os olhos,
para que me bate o coração
e porque o meu corpo não cria raízes.

Mas como responder às perguntas não colocadas,
ainda por cima, sendo eu para vocês assim,
tão ninguém.

Moitas, pinhas, prados e juncais,
tudo o que vos digo é um monólogo,
mas não são vocês que o ouvem.

Uma conversa com vocês é imprescindível e impossível.
Urgente nesta vida apressada
e adiada para nunca.

Em: Szymborska,Wisława (2006) Instante. Trad. Milewska, Elżbieta e Neves, Sérgio. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 31-33.


O silêncio das plantas

O relacionamento unilateral entre mim e vocês não vai mal de todo.

Sei o que são folhinhas, pétalas, espigas, pinhas, caules

e o que se passa convosco em Abril e Dezembro.

E embora a minha curiosidade não seja correspondida,

inclino-me especialmente sobre umas
e ergo a cabeça para outras.

Para mim, vocês têm nomes:

ácer, bardana, amémona,

urze, zimbro, visgo, miosótis,

já eu, para vocês, nenhum.

Viajamos juntas.
E nas viagens conversa-se.
Trocam-se opiniões, nem que seja sobre o tempo

ou sobre as estações velozamente atravessadas.

Temas não faltariam, pois muito temos em comum.

Estamos ao alcance da mesma estrela.
Fazemos sombra, regidas pelas mesmas leis.

Tentamos saber algo, cada uma à sua maneira

e o que não sabemos também nos assemelha.

Perguntem, tentarei esclarecer-vos:
o que é ver com os olhos,
para que me bate o coração
e porque o meu corpo não cria raízes.

Mas como responder às perguntas não colocadas,

ainda por cima, sendo eu para vocês assim,
tão ninguém.

Moitas, pinhas, prados e juncais,

tudo o que vos digo é um monólogo,

mas não são vocês que o ouvem.

Uma conversa com vocês é imprescindível e impossível.

Urgente nesta vida apressada
e adiada para nunca.

Em: Szymborska,Wisława (2006) Instante. Trad. Milewska, Elżbieta e Neves, Sérgio. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 31-33.

Bom, eu, perante este poema tão belo, tomava esta ideia final de que a Szymborska enuncia, dizendo que uma conversa com as plantas, que são silenciosas, é imprescindível, ou seja, é absolutamente necessária, mas não é possível, não é possível. Agora aqui vai o meu poema que conversa com o poema da Szymborska.


«O silêncio das plantas»

Eu gosto das plantas que não falam
e são capazes de guardar segredos.
No entanto, pelo tronco acima de uma árvore secular
não é difícil ouvir a conversa da seiva com as folhas.

Eu gosto de ficar abraçado a um tronco assim,
sentir a energia das secretas raízes
que puxam a minha alma para o alto.

As plantas conversam com os pássaros,
ensinam-lhes silenciosamente a governar a vida.

Estou de acordo com isto
porque os homens não merecem
saber mais do que já sabem.

Se eu fosse uma planta silenciosa
poderia escrever um poema mudo
onde teria berço apenas o que é importante.

Em: Sá, Fernando Augusto Cunha de (2023) Outro Instante. Lisboa: Edição de Autor, p. 31.


O silêncio das plantas 

Eu gosto das plantas que não falam
e são capazes de guardar segredos.
No entanto, pelo tronco acima de uma árvore secular

não é difícil ouvir a conversa da seiva com as folhas.

Eu gosto de ficar abraçado a um tronco assim,

sentir a energia das secretas raízes
que puxam a minha alma para o alto.

As plantas conversam com os pássaros,

ensinam-lhes silenciosamente a governar a vida.

Estou de acordo com isto
porque os homens não merecem
saber mais do que já sabem.

Se eu fosse uma planta silenciosa
poderia escrever um poema mudo
onde teria berço apenas o que é importante.

Em: Sá, Fernando Augusto Cunha de (2023) Outro Instante. Lisboa: EdA, 31.

JŻ: Portanto, vê-se logo este dialogar com a poesia dos Szymborska e essa ideia que mencionou, deste diálogo com as plantas. Também dá-me esta sensação de que todos os nossos atos na vida são mais importantes do que as palavras. Este é o ensinamento que as plantas nos podem dar. Não sei se esta também era a sua ideia quando escreveu esse poema.

FC: Absolutamente, absolutamente. Veja, eu queria também, sem prejudicar o rumo da nossa conversa, mas queria só dizer o seguinte. A vida de uma obra poética e, consequentemente, a vida do seu autor, vai muito para além do imaginável. Quando eu escrevia este livro, [que polaco foi traduzido para polaco por Wojciech Chachalis] por Inna Chwila, o meu tradutor, imaginou que o diálogo entre mim e a Szymborska não acabaria. Imaginou que seria a própria Szymborska agarrada ao meu livrinho e a responder-lhe. Isso ainda não aconteceu, mas eu não desisto que aconteça. Continuo muito interessado em manter-me aberto e à escuta desse possível diálogo, para além daquilo que já aconteceu. Eu gostaria também de trazer ao seu conhecimento e ao de quem nos ler uma biografia excelente, feita sobre Wislawa Szymborska, da Teresa Fernandes Swiatkiewicz, intitulada A vida não está a venda. Curiosamente, esta frase, «a vida não está a venda», era uma frase que Szymborska apresentava como resposta a perguntas que lhe faziam sobre si própria, sobre o privado, e que ela não queria responder, então dizia: «bom, a minha vida não está à venda». Esta expressão levou-me para outro plano, não o plano estritamente pessoal da vida privada, mas o que acontece em geral aos nossos olhos no dia-a-dia. A vida não está à venda. Será verdade ou não será? Eis o meu poema:


«A vida não está à venda»

Basta olhar à tua volta
a vida não está à venda
mas é comprada sem preço.

Alguém coloca as peças
nem pergunta se querem jogar
um jogo que não é delas.

Depois peças haverá convencidas
de que julgar é a única alternativa.

Outro alguém as vai comer
atirar fora do tabuleiro
já inúteis, já esquecidas.

Novas peças, novos peões,
o mesmo jogo azarado.

A vida não está à venda,
mas é comprada sem preço.


A vida não está à venda

Basta olhar a tua volta
a vida não está à venda
mas é comprada sem preço.

Alguém coloca as peças
nem pergunta se querem jogar

um jogo que não é delas.

Depois peças haverá convencidas

de que julgar é a única alternativa.

Outro alguém as vai comer

atirar fora do tabuleiro
já inúteis, já esquecidas.

Novas peças, novos peões,

o mesmo jogo azarado.

A vida não está à venda,
mas está comprada sem preço.

JŻ: Muito bom, mas muito difícil.

FC: É uma transposição para as guerras que nos cercam e que ameaçam a paz em geral, da Europa, e que eu imagino como sendo um tabuleiro de xadrez ou um jogo de damas, em que somos nós as peças. Não queremos jogar, achamos que a nossa vida é preciosa, mas a verdade é: quem nos põe no tabuleiro não dá qualquer valor à nossa vida. Por isso, embora nós não a tenhamos posto à venda, a verdade é que ela é comprada contra a nossa vontade sem qualquer preço. A poesia tem de estar, a meu ver, inserida na realidade que nos rodeia, permanentemente, seja essa realidade catastrófica, seja pequena do tipo da vida das formigas. Isso foi uma das coisas que eu aprendi com Wislawa Szymborska, atenção a todas as coisas que nos rodeiam, como motivo, como tema da poesia.

JŻ: Pois está relacionado com a pergunta que eu queria fazer-lhe agora porque Szymborska é conhecida pela sua capacidade de transformar o quotidiano em algo cheio de significado, sempre com uma certa ironia e precisão lírica. Há algum aspeto da forma como ela observa o mundo que se manifesta agora na sua própria escrita?

FC: Sim. Acho que todo o nosso trabalho poético, toda a obra de qualquer poeta, é uma obra em continuidade, sobre aquilo que o cerca e aquilo que ele vai interiorizando sobre aquilo que o cerca. É uma espécie de filtragem de fora para dentro, e depois, elaborada, volta a sair. Essa é uma lição que qualquer autor deve prosseguir, deve aprender.

Sempre mantive o meu diálogo poético na gaveta.

E agora acho que é tempo de continuar atrevido.

JŻ: Sim, é verdade e concordo consigo. A poesia polaca tem uma grande riqueza e profundidade, e muitos nomes são reconhecidos globalmente. Há pouco mais de duas semanas publicou-se em Portugal um livro de poesia de Zbigniew Herbert, Poesia Quase Toda. Também há pouco tempo foram anunciados os resultados do concurso de poesia inspirado na personagem literária Senhor Cogito, de Zbigniew Herbert. Já agora, queria, uma vez mais, dar-lhe os meus parabéns pelo seu poema vencedor. E com isso gostava de saber se há outros poetas ou poetisas polacos que o marcaram e que influenciaram a sua maneira de escrever ou pensar sobre a poesia. Será Zbigniew Herbert um deles agora?

FC: Sim. É outro grande poeta que eu estou presentemente a tentar conhecer de uma maneira mais profunda. É extremamente curioso fazer uma análise do que se tem passado em Portugal sobre os autores polacos contemporâneos mas também os mais antigos como Mickiewicz, por exemplo. Não se pode dizer que a literatura, e especialmente a poesia polaca, tenham uma grande penetração em Portugal. Não é desconhecida, de maneira nenhuma, mas trata-se de uma aproximação de dois mundos que se estão a seduzir. Gostaria também que isso acontecesse no sentido inverso, ou seja, que os poetas portugueses passassem a ser também conhecidos pelo público polaco, para além, enfim, daqueles mais conhecidos como o Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Agora com o quinto centenário do nascimento de Camões talvez fosse uma oportunidade para o Instituto Camões dar a conhecer a sua obra.

JŻ: Vamos tentar com todas as forças. Também gostaria de refletir consigo sobre o papel da poesia no mundo de hoje. No seu poema «Lista» diz assim: «como partilhar a poesia de cheiros e sabores na latitude vária, na distante longitude?». Acredita que a poesia tem a capacidade de unir diferentes culturas, como a portuguesa e a polaca, criando pontos de encontro e compreensão mútua? Como vê essa ponte sendo construída através dos seus próprios versos?

FC: Acredito absolutamente, acredito. A poesia tem o condão de ser a palavra, ou aparecer em cor, em pintura, ou em som, em música. Não preciso de falar a mesma língua para ver um quadro e entendê-lo, absorver as suas cores, a sua energia. Da mesma maneira, a poesia ultrapassa as barreiras. Eu tive uma experiência muito curiosa, fortuita, mas muito curiosa na minha vida. Gosto imenso de viajar. Numa viagem que eu fiz pelos países eslavos cheguei a uma aldeia onde estavam a celebrar alguma coisa que eu não sabia o que era, mas que poderia ser um centenário ou algum evento muito importante de um poeta dessa terra e, além do mais, estiveram a declamar a sua poesia. Eu não entendia minimamente o sentido das palavras porque era uma língua estranha para mim, mas fiquei ali fascinado a ouvir a música dessas mesmas palavras que ia para além do seu sentido que era captável por mim. Portanto, eu acredito firmemente que a poesia pode aproximar as pessoas, pode aproximar as almas e os corações e a nossa posição comum perante o mundo, que também é comum.

JŻ: Sim, concordo consigo completamente. E acho que também devemos introduzir mais iniciativas aqui na Polónia para aproximar-nos da poesia de outros países, especialmente da de Portugal. O seu fascínio pela Polónia e pela sua tradição poética é algo que intriga. Pergunto-me se essa conexão é impulsionada por algo pessoal — talvez uma experiência marcante — ou se se trata de um interesse profundamente literário e intelectual?

FC: Nada pode ser abstrato e eu sou uma pessoa com os meus sentidos abertos. É fundamental a minha aproximação às pessoas e a aproximação das outras pessoas a mim. E o meu contacto com a gente da Polónia foi um contacto fortuito. Também um acaso inconcebível, mas real. Eu ensinei durante muitos anos na Faculdade de Direito de Lisboa. E aí tive a oportunidade de contactar com estudantes estrangeiros que tinham a ideia de fazer o doutoramento em Portugal. E duas das minhas candidatas ao doutoramento eram polacas. Esta aproximação, como eu dizia, foi fortuita e no plano jurídico. Nada tinha a ver com o plano poético. A verdade é que me conduziu depois à literatura polaca, porque não há nada melhor do que a aproximação entre as pessoas para ir para além dessa aproximação relativa e ir aprofundá-la através do conhecimento do seu país, da sua cultura, da sua literatura, das suas artes. E foi assim que me aconteceu esta aproximação.

JŻ: Acho que há algo fascinante em como as culturas podem entrelaçar-se e como as pessoas podem interagir entre si, graças à arte, e especialmente à literatura. No seu caso, pergunto-me se a sua poesia dialoga apenas com a essência universal das palavras ou se, por vezes, mergulha mais fundo na história e cultura polacas?

FC: Diria que, ao dialogar com poetas polacos, vou absorvendo naturalmente esse espírito, essa cultura e essa experiência própria da Polónia. Portanto, não é uma baliza que eu ponha mas é uma recetividade que está permanentemente atuante e que me leva a interessar-me sempre por tudo o que se passa e também o que se passou. Isto também me leva, como jurista, a interessar-me pelos problemas jurídicos da Polónia, pela vivência das suas instituições judiciais, pelas lutas que se fazem para levar para a frente os direitos das pessoas dentro de cada coletividade.

JŻ: Então, não é um objetivo em si, mas algo que acontece naturalmente.

FC: Sim, vai acontecendo naturalmente. Não como um objetivo pré-determinado, fixo, mas alguma coisa que é fluida e pela qual eu sou captado e que eu também procuro captar, claro.

JŻ: E, por fim, gostava de falar um pouco sobre a tradução. A tradução poética é uma ponte entre culturas, mas também um desafio delicado. Estou curiosa por saber a sua opinião sobre a importância deste trabalho. Quais foram as maiores dificuldades que encontrou ao dialogar ou até mesmo ao ler poesia polaca no contexto da língua portuguesa?

FC: Tive a sorte de ter encontrado excelentes tradutores para português da poesia polaca. Falei há pouco da Elżbieta Milewska, do Sérgio Neves e agora da Teresa Fernandes Swiatkiewicz. Tenho um enorme apreço pela atividade do tradutor de poesia. Este apreço vem da minha própria experiência. Também tentei já traduzir para português, não do polaco porque não tenho conhecimento, tenho pena, mas não tenho conhecimento nenhum da língua polaca porque nunca estudei. Talvez ainda venha a ter a sorte de aprender alguma coisa deste contacto pessoal. Vejo que o esforço de traduzir um poeta supera qualquer outro esforço de traduzir literatura, palavras, discursos, sejam técnicos ou não. Porquê? Porque na poesia há uma síntese que tem muito de impressionismo, que as palavras podem ser as mesmas, mas o intuito com que são selecionadas pelo poeta, a maneira como são trabalhadas na sua junção, criam significados próprios, significados realmente íntimos, e é essa intenção que o bom tradutor deve captar. Creio que, tal como dizia, pela pouca experiência que tive nesse setor, que é um trabalho quase tão meritório como a  própria criação poética porque é uma segunda criação. É outra dimensão dum poema. Há autores que dizem: «bom, eu não sei o que é que as minhas obras significam noutra língua. Espero que tenham o significado que lhes pretendo atribuir». Mas há uma coisa que qualquer autor — e aqui desculpe-me mas eu também — aprecia muito. É ouvir a música dos seus poemas noutra língua. Porque não têm a mesma música em português ou em polaco. Aquilo que eu escrevo tem um cerne comum, mas depois tem uma roupagem diferente, e essa roupagem é música, e a música é absolutamente decisiva na poesia.

JŻ: É muito interessante esse olhar, eu também acho que traduzir uma obra poética é, essencialmente, como escrever uma obra própria com base nesta obra poética, o que é muito difícil também.

FC: Sim, concordo.

JŻ: Pronto, e aqui acabam as minhas perguntas, gostaria de lhe agradecer profundamente por esta conversa que para mim foi muito inspiradora e muito enriquecedora, eu que também sou poetisa. Nunca publiquei nenhum livro, mas talvez, talvez no futuro.

FC: Então posso lançar-lhe um desafio? Desafio-a uma vez que tem capacidade de traduzir para português e está a traduzir a sua própria língua, porque eu acho que para ser um bom tradutor é o sentido. Portanto, alguém que domina o português, pode traduzir a sua poesia e outros poetas polacos para português. E olhem:  o português que também saiba polaco pode fazer o mesmo. Deixe-me só explicar como é que a poesia nasceu na minha vida. Ela nasceu mais ou menos nos anos 50 do século passado. Eu era pequeno. Naquela altura, os meus pais incentivaram-me a dizer poesia. A decorá-la.

Essa arte tomou uma forma memorizada e isto despertou em mim duas coisas: o gosto pela poesia e também o gosto pela colaboração porque dizer o poema significa também de alguma maneira representar. É tornar presente, é isso que é representar. É tornar presente o pensamento íntimo, o sentimento, o elemento poético. Por isso eu, com esse empurrão familiar e também com a sorte de ter poetas no meu círculo familiar próximo, comecei a escrever, comecei a escrever e tive o atrevimento – porque eu sou uma pessoa atrevida – o enorme atrevimento de ter feito este diálogo com a Szymborska. Outro atrevimento inicial foi publicar poesia muito cedo. Muito cedo, com 15 anos, publiquei o meu primeiro livro de poemas, chamado Lua Nova. Publiquei como Fernando Sá. Eu era um jovem de 15 anos. Depois, segui com os meus estudos, com a carreira académica. Embora tenha continuado sempre a escrever poesia, não a publiquei. Sempre mantive o meu diálogo poético na gaveta. E agora acho que é tempo de continuar atrevido. Já agora deixe-me só dizer uma coisa: interessa-me particularmente saber neste momento aquilo que eu escrevo agora com a idade que tenho, com a experiência de vida que tenho, porque ela ecoa dentro de mim. Será que aquilo que eu escrevo tem algum significado para uma jovem como a Justyna. Faz sentido? Não faz sentido? Este diálogo geracional será uma coisa possível? É semelhante ao meu diálogo entre latitudes e geografias diferentes, em épocas diferentes.

JŻ: Para mim, claro que tem sentido. Eu acho que a idade com que se publica as obras não importa tanto. Acho que o que é importante é a forma como olhamos para o mundo. E como apresentamos esse nosso olhar na poesia. Portanto, eu não acho que esta, digamos, barreira da idade seja um problema. Porque tanto conseguimos ler os poemas dos autores que são mais velhos do que nós, como conseguimos ler autores que morreram já há tantos anos e que viveram numa realidade muito diferente. E que falaram do tempo, do espaço e de outras experiências, mas podemos sempre encontrar elementos com os quais nos podemos identificar também. Mesmo sendo jovem e com experiências tão diferentes, há sempre alguma coisa que nos faz sentir próximos, apesar dessas diferenças.

FC: Esse é o verdadeiro cerne da poesia.


Agradecemos por partilhar a sua sabedoria e a sua poesia connosco e com todos os que vão ler esta entrevista. Esperamos que o seu universo literário continue a encontrar novos horizontes e novas vozes poéticas que alimentem a sua obra poética.

+ posts

Doutoranda em literatura portuguesa na Universidade de Varsóvia, com investigação centrada na literatura dos Açores. Apaixonada por línguas estrangeiras e pelo encontro com novas culturas. Admiradora do mundo romano antigo e entusiasta das línguas minoritárias. Poeta autoproclamada desde os tempos do liceu e orgulhosa mãe de duas gatas: Mrusia e Mania.

Doutorando em literatura brasileira na Universidade de Varsóvia, colaborador com o Departamento de Estudos Brasileiros da mesma universidade. Professor de língua portuguesa, Grande Colisor de Ideias e Malabarista das Redes Sociais no Instituto Camões Varsóvia. Ama tocar um samba, ensinar língua portuguesa e traduzir. Fora da área, multiinstrumentalista e artista visual.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Top