O novo normal? Aprendizagem on-line e o futuro da educação

A vida académica na Polónia mudou significativamente devido à pandemia da COVID-19. A educação também foi atingida pelo novo coronavírus: as aulas na universidade foram substituídas por Zoom meetings; as idas a biblioteca por leitura dos e-books na cama, as palestras converteram-se em reuniões de Google Meet e a pesquisa foi levada aos arquivos digitais. Em poucas palavras, cada aspeto da vida académica encontrou o seu substituto on-line. Neste artigo vamos analisar a situação atual e responder à pergunta se a realidade virtual torna-se o novo normal. Neste âmbito ver-se-ão igualmente as seguintes questões: Será possível voltar a rotina anterior à pandemia?; Será que ainda queremos voltar ao sistema antigo? Dado que cada situação tem as suas vantagens e desvantagens e a mudança do sistema tradicional da educação para a aprendizagem on-line não é uma exceção, precisamos resumir ambos os lados da questão.

A Organização Mundial da Saúde anunciou no dia 30 de janeiro de 2020, uma emergência de saúde pública de importância internacional por surto de de 2019-nCoV. No caso da Universidade de Varsóvia o início da pandemia impôs várias mudanças. Note-se que o funcionamento de toda a universidade foi adaptado ao novo sistema. A saber desde 23 de março as aulas na Universidade de Varsóvia são remotas. Posto que a situação muda constantemente e não se sabe quando ensino à distância vai acabar. No que toca às viagens que fazem parte importante da vida académica os estudantes que permaneceram no estrangeiro durante a eclosão do novo coronavírus tiveram a opção de interromper o seu intercâmbio e voltar ao país ou ficar no estrangeiro. As viagens de negócios e estudos, tais como os estágios profissionais no ambiente do programa Erasmus+ foram suspensos desde 11 março até ao 30 de junho e foram retomadas quando for decidido que é seguro. Então neste momento, os intercâmbios de estudantes estão suspensos para o semestre de inverno do ano letivo 2020/2021 e as viagens de negócios são significativamente reduzidas. O Reitor de Universidade de Varsóvia decidiu mudar as leis relativas à condução de exames e defesas de diplomas para facilitar o funcionamento da universidade durante a pandemia.

Por isso tudo, em primeiro lugar, o confinamento e a subsequente limitação do movimento desenvolveu o uso de plataformas educacionais variadas e diferentes aplicações e programas. As plataformas como Moodle ou Google Classroom nãosão recursos novos, mas antigamente não eram tão populares. Talvez não substituam os exames presenciais, mas as suas outras funções são úteis. Nomeadamente, o espaço com a coleção dos materiais da aula (ficheiros, fichas, links, etc.) e os mini-testes facilitam o processo do ensino e ajudam na aquisição das informações novas. Existem igualmente diversas aplicações usadas na sala de aula virtual como Kahoot, Mentimiter ou Socrative que são usadas para criar testes, questionários ou resumos na forma interativa e atrativa. Estas formas de exercícios enriqueceram a aula, mas também mostram aos estudantes que poderem usá-los por sua conta própria para estudar. Zoom, Google Meets ou Microsoft Teams substituem, à sua vez, a sala de aula.

O funcionamento das bibliotecas e dos arquivos mudou quando as idas fora de casa foram limitadas ou até proibidas. As instituições promovem as suas bases digitais que crescem constantamente. A Biblioteca da Universidade de Varsóvia conhecida como BUW encoraja a usar a ampla gama de recursos eletrónicos que foi complementada por bases EMIS e JSTOR. Disponibiliza também o serviço de digitalização de obras físicas do acervo, mas infelizmente o período de espera é longo. Isso mostra uma grande necessidade da modernização neste setor. Talvez, graças a estas mudanças e outras inovações esperadas algum dia possamos ter acesso a todos os recursos do mundo a partir do nosso computador. Será revolucionário para os portadores de deficiências e poderá mudar as suas vidas. Por outro lado, sublinhe-se que já neste momento existem muitas bibliotecas digitais e recursos variados que ajudam aos pesquisadores. Nomeadamente: CRISPA, Polona, Biblioteca Nacional Digital de Portugal, BNDigital –  Biblioteca Nacional Digital do Brasil e muito mais.

Destaque-se igualmente que o mundo académico rapidamente respondeu aos desafios passando a transmitir vários acontecimentos on-line. O Instituto de Estudos Ibéricos não parou de organizar eventos. Simplesmente os transferiu para o mundo virtual. Neste semestre, tivemos o prazer de participar em Congresso Internacional TRANSIBÉRICA com a participação dos estudantes e professores da nossa universidade e de outras ao redor do mundo. New York Portuguese Short Film Festival em vez de ter o lugar no Instituto de Camões aconteceu-se no site mojeekino com as legendas criadas em colaboração dos estudantes de Varsóvia e Cracóvia. Também o Segundo Seminário de Jovens Investigadores em Língua Portuguesa SEJ-In organizado pelos estudantes do primeiro ano de mestrado em Filologia Ibérica, especialização em Estudos Brasileiros. O palácio de Wilanów criou o passeio virtual pelos seus jardins e a palestra sobre a cozinha tradicional de Polónia– os eventos aos quai foram convidados os estudantes da especialização em Estudos Portugueses. Outras universidades e instituições também organizam muitos eventos virtuais. Basta entrar no site da Biblioteca Nacional de Portugal, das universidades portuguesas e os seus respetivos centros e institutos ou ser membro dos grupos como RIH de que falarei mais adiante. Um grande inconveniente são infelizmente… os fusos horários: diferentes para a Polónia e para Portugal e ainda mais distantes no caso do Brasil.

A vantagem óbvia desta maneira de educação é conveniência e… economia. Muitos estudantes não alugaram alojamento e continuam a viver nas suas casas familiares. Desta maneira pouparam dinheiro e tempo porque não precisam de viajar para a universidade. As vantagens são obviamente subjetivas, i.e. dependem da pessoa e da sua situação.

Agora, vamos seguir para as desvantagens da aprendizagem e a realização do trabalho científico on-line durante a epidemia de coronavírus.

Nem cada casa é ajustada para estudar on-line. Se não vivem sozinhos, os alunos podem ser expostos às condições que os impedem de se concentrarem. Mesmo que atualmente praticamente cada casa tenha acesso à Internet, nem todos têm boa ligação e cobertura. Acresce que o uso frequente da Internet causa problemas técnicos que são muito irritantes e causam stress. Tudo está conectado com a capacidade de manter o foco necessário para estudar. Os problemas que parecem menores, a longo prazo podem tornar-se graves.

Sublinhe-se que os estudantes não são os únicos afetados por esta situação. Os trabalhadores académicos também têm problemas com a pesquisa. As bibliotecas já estão abertas, mas há muitas restrições em relação ao número de pessoas e ao horário.  Em alguns momentos durante a pandemia os recursos foram limitados só para o ambiente virtual. As instituições oferecem o processo da digitalização, mas – como já foi mencionado – o processo demora muito. Contrariamente ao que se diz nem tudo pode ser encontrado na Internet. Para lutar com estes inconvenientes os pesquisadores começaram a formar grupos de apoio para ajudar um ao outro. O bom exemplo é RIH –  Red Iberoamericana de Historiadoras criada no Facebook onde as pessoas compartilham os seus recursos e pedem ajuda na pesquisa. Apesar da situação péssima, surgem soluções interessantes e novas comunidades são criadas.

Voltando à questão central: Será que a atual maneira de estudar é o novo normal? Provavelmente não. É difícil acreditar que no futuro os estudantes vão licenciar-se através da chamada Zoom e fazer os exames sem sairem de cama. Por outro lado, o retorno ao ensino tradicional também não parece uma boa ideia. Alguns métodos habituais foram “desmascarados” pela pandemia e agora, sob a ótica das novas tecnologias, parecem antiquadas. Na minha opinião a melhor solução seria uma reforma gradual do sistema educacional. A saber, quando (ou se) a pandemia terminar, os alunos devem voltar para as universidades, mas as plataformas como Moodle ou Google Classroom ainda podem ser úteis. A parte das aulas ainda poderia, ser realizada através da Internet, por exemplo. As palestras internacionais ainda podem acontecer on-line para permitir o acesso de pessoas de todo o mundo. As novas comunidades criadas durante a pandemia não devem ser esquecidas – esta colaboração e fraternidade entre pesquisadores poderia ser continuada e expandida para outros setores da vida académica. Se as universidades e as instituições permanecerem em contacto será possível criar uma grande rede internacional dos recursos e informações. Este fenómeno podia ajudar com a pesquisa ou mesmo acelerar os estudos e as novas descobertas. Em poucas palavras, os novos recursos on-line e os métodos de aprendizagem à distância podem ser implementados no sistema clássico do ensino. A solução perfeita seria encontrar um compromisso entre o antigo e o novo. Para saber o que vai acontecer, precisamos de esperar.

+ posts

Acabou curso dos Estudos Portugueses na Universidade da Maria Curie-Skłodowska em Lublin em 2019. Atualmente é uma estudante do quarto na Universidade de Varsóvia. Ama os filmes de David Lynch e Yorgos Lanthimos. Gosta de correr e viajar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Top