Resenha do filme Sementes: Mulheres Pretas no Poder

Manifestação conseguinte ao assassinato de Marielle Franco.

Imagem de divulgação via Embaúba Filmes


Quando a vida…
Quando a vida bater forte e sua alma sangrar,
quando esse mundo pesado lhe ferir, lhe esmagar,
é hora do recomeço, recomece a lutar.

Bráulio Bessa. Recomeço.

O fragmento poético do cordelista Bráulio Bessa retrata a intenção do documentário titulado „Sementes: Mulheres Pretas no Poder” que estreou no Brasil, em setembro de 2020. Após o brutal assassinato da vereadora Marielle Franco, as diretoras Éthel Oliveira e Júlia Mariano – duas mulheres, com poucas produções cinematográficas em seus portfólios – acompanharam, escutaram e apresentaram a trajetória de seis candidatas de plataformas progressistas, às eleições de 2018, a saber: Mônica Francisco, Tainá de Paula, Rose Cipriano, Renata Souza, Talíria Petrone e Jaqueline Gomes. O longa-metragem retrata a campanha eleitoral dessas mulheres, também chamadas de sementes que após uma tragédia, recomeçam o processo de semear. 

A filme inicia com as cenas das manifestações conseguintes ao assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, reconhecida por sua luta contra o fascismo, machismo, homofobia e racismo. A morte trágica da vereadora causou indignação ao mesmo tempo em que serviu de inspiração à candidatura de diferentes mulheres – pretas e de periferias, para as eleições de 2018. Ao evidenciar a vida cotidiana dessas mulheres, especialmente no período de campanha, os espectadores têm a oportunidade de se aproximar das protagonistas do filme. Na verdade, cada uma delas mereceria um filme único pela sua trajetória particular, vivenciadas num contexto de “ou/ou” – ou estuda, ou trabalha. Ou economiza no lanche, ou vai a pé. 

A primeira candidata apresentada chama-se Mônica Francisco e é a mais velha protagonista com 48 anos, no ano de gravação. Ex-assessora de Marielle Franco, pastora evangélica e feminista está focada principalmente, como as demais personagens, no melhoramento das condições de vida das pessoas de periferias, porque ela também é uma dessas, que conhece tudo de dentro para fora. Um dos momentos mais tocantes de filme é quando uma amiga transgênero de Mônica a elogia, dizendo que tem muito respeito por ela porque apesar de ela ser pastora, a principal representante da comunidade religiosa, ela quer representar todo mundo e ajudar a todos. 

A segunda candidata chama-se Tainá de Paula e é arquiteta. Na primeira cena em que aparece, ela é apresentada após a amostra das danças africanas. Empolgada com o surgimento dos novos movimentos antifascistas, vê nessas movimentações a esperança de um futuro melhor. Acredita que a situação de Brasil poderá melhorar quando os cidadãos acordarem do seu acomodamento, principalmente ao perceber que os partidos ditos tradicionais já não os acolhem.  

A terceira candidata chama-se Talíria Petrone e é a caçula das participantes do documentário, com 33 anos, durante as gravações. Foi a vereadora mais votada de Niterói, em 2016. Cheia de energia, sempre vestida com cores vivas e pronta para ajudar qualquer um que precisa de socorro como é retratada na cena por exemplo em que mostra uma intervenção da polícia. Talíria fez um clipe de publicidade com Renata Souza, que é a quarta candidata apresentada no documentário. As fotos delas são exibidos entre símbolos de black power, feminismo e flores, tudo acompanhado pelo funk. Ambas representam a nova onda da política brasileira, aquela que não tem medo de colocar elementos da vida cotidiana e da cultura popular para aquecer suas imagens e convencer os eleitores de que são iguais a eles.

Rose Cipriano é a quinta candidata. Uma professora carioca que preza por melhores condições para os seus estudantes. Tentando conciliar o trabalho com a candidatura, não tem tempo para descanso. Rose destaca que muitas mulheres que se candidatam nas mesmas condições que ela, tentam tirar o melhor proveito dessa situação de luta porque são apaixonados por suas causas.

A ultima protagonista é a professora Jaqueline Gomes, a primeira mulher trans a ser candidata a deputada estadual pelo Rio de Janeiro. Pioneira na luta contra o machismo, fascismo e LGBTfobia, ela representa o preconceito que sofrem as mulheres trans negras e quer combatê-lo, fazendo a diferença como deputada.

Todas as candidatas não sentem nenhum medo de se apresentar nas ruas, onde falam com as pessoas simples, em sua maioria negras e pobres. São os eleitores que elas querem ajudar mais, portanto, elas fazem de tudo para alcançar o público mais amplo. Ao longo do filme, podemos vê-las nas entradas das universidades e praças, nas manifestações organizadas por mulheres negras e de comunidade LGBT. Elas também organizam os seus encontros próprios com eleitores onde falam mais sobre as causas que estão mais próximas delas e onde discutem sobre a realidade de vida das classes populares. O documentário apresenta todas estas situações de maneira sincera, sem enfeites. A candidatura é trabalho difícil e árduo, o qual podemos acompanhar durante as filmagens. Poucas vezes as encontramos reclamando da vida que escolheram (claro, com a exceção de reclames sobre os fascistas ou sobre o atual governo).

Importante mencionar que estas seis mulheres são precursoras do movimento #EleNão, criado em oposição à candidatura de Jair Bolsonaro. O que no início foi somente uma hashtag (#), graças a isso, tornou-se um dos principais signos de toda a campanha. Nesse sentido, as candidatas pediram para não fazer uso violência e não responder aos provocadores, ao contrário do que fazem os ativistas opositores. 

Como espectadores, podemos acompanhar com essas mulheres os resultados das eleições de 2018 e antecipar as ações futuras, bem como sentir junto as emoções que permearam o longa. Independentemente da derrota da esquerda, elas sabem que a luta não acabou, mas, é só o recomeço. Afinal, foi um grande sucesso no que diz respeito à presença feminina nas eleições. O número de candidaturas negras em 2018, aumentou até 93% em relação ao ano anterior. Vimos, assim, que foi um momento histórico. Três delas foram eleitas: Talíria Petrone, Renata Souza e Mônica Francisco e aqui começou seu verdadeiro trabalho na representação política, um grande esforço para mudar lentamente a vidas dos brasileiros. 

Após as eleições, as protagonistas preparam-se para partir a Brasília e inaugurar seus quatro anos de ofício. Desde esse momento, elas causam um real impacto no parlamento brasileiro, representando a força que vai lutar pela leis das minorias, pessoas que sofrem preconceito e violência – negros, LGBTs, mulheres, além de fazer justiça à morta de Marielle Franco e evitar tragédias semelhantes no futuro. 

Acreditamos que documentários como este têm imensa importância, uma vez que conscientizam a sociedade sobre o grande esforço das mulheres, especialmente negras, que tem o sonho de mudar a vida de todos. Aliás, podem com isso ter esperança de um futuro melhor. „Sementes: Mulheres Pretas no Poder” é um filme bastante honesto e tocante, quebra com o estereotipo de mulheres negras não-educadas, sem voz e poder de mudar a realidade.  Todas estas mulheres podem servir de inspiração para defendermos nossas causas, mesmo que o mundo inteiro esteja contra nós, sem hesitar de desistir das nossas crenças. Ao terminar de assistir o filme, retroalimentamos a fé por um amanhã melhor, de recomeços, com as palavras nos lábios „Vidas negras importam”. 

Ficha técnica:
Documentário – Sementes: Mulheres Pretas no Poder
Brasil, 105 minutos, 2020
Direção: Éthel Oliveira e Júlia Mariano
Roteiro: das diretoras em parceria com Helena Dias e Lumena Aleluia
Fotografia: Marina Alves
Trilha sonora: Maíra Freitas

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Estudante do terceiro ano da iberística (seção portuguesa) na Universidade de Varsóvia. Cinéfila e amante da cultura brasileira.

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Estudante do terceiro ano dos estudos brasileiros na Universidade de Varsóvia. Desde criança interessada em línguas, apaixonada por música e pole dance.

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