Árvores nas crenças bascas no passado e hoje em dia

Até hoje o basco, ao cortar uma árvore, está a pedir-lhe desculpa. Isto é só um dos exemplos que mostram quão grande era (e ainda é) a importância das árvores no mundo basco. Acreditavam eles que tudo acontece numa ordem cíclica e por isso a árvore era o símbolo perfeito do ambiente que os rodeava, protegendo, ao mesmo tempo, o mundo debaixo da sua coroa.

Já no século XIV no País Basco, existia a tradição que o novo rei assumia o trono ao pé duma árvore. Na Biscaia, aquele acontecimento tinha lugar ao pé da Árvore de Arechabalaga, de onde o novo rei começava o percurso, visitando a aldeia costal — Bermeo, a igreja de Larrabezúa e claramente Guernica, onde ainda hoje se encontra um dos símbolos mais importantes de identidade basca — a Árvore de Guernica. Era debaixo desta árvore que se confirmava oficialmente a governança do novo rei, mas também onde se estabelecia a lei e onde decorriam os processos judiciais.

A Árvore de Guernica encontra-se tanto no escudo do município de Larrabezúa como no escudo de toda a Biscaia e, como aquele último, faz parte do escudo do País Basco, a Árvore de Guernica é uma das quatro árvores presentes no escudo do país (os restantes três são os teixos do escudo de Guipúscoa).

Tanto a Árvore de Arechabalaga como a Árvore de Guernica eram carvalhos, o que não surpreende tanto, tendo em conta que, para os bascos, os carvalhos tinham um significado muito particular por terem sido especialmente duros e resistentes.

O terceiro carvalho com muita importância na região de Biscaia ficava na aldeia chamada Luiaondo. Segundo os «Fueros de los Vizcainos» esta árvore era o marco final do alcance da governança do rei. Isto significava que atrás desta árvore os biscaios não teriam obrigação de obedecer ao rei.

Mas não só carvalhos eram adorados entre os Bascos. Algumas outras espécies de árvores com muita importância eram, por exemplo, as faias, os castanheiros ou os freixos. Estes últimos encontravam-se em cada jardim basco cumprindo a função de guarda. Os bascos acreditavam que o freixo era a árvore de São João. Os seus ramos nunca foram abençoados pois aquela árvore já era considerada santa.

O culto das árvores existia não só como culto separado, mas também estava ligado com o culto solar. Podemos observar aquela correlação analisando a etimologia de algumas palavras da língua basca, como, por exemplo, «sol» (eguzkia), «dia» (egun) e «lenha» (egur). A ligação entre os dois cultos está também confirmada por algumas tradições bascas. Na noite de solstício de verão (a noite do início do novo ciclo solar) na praça central da cidade plantava-se um álamo ou um carvalho. Também, de manhã depois do solstício, coletavam-se folhas de nogueiras e de sabugueiros para preparar o chá, que se acreditava possuir propriedades mágicas de cura.

É também importante sublinhar que, com todo o respeito que os bascos atribuíam às árvores, existia uma espécie – nomeadamente o corniso – que se acreditava ter ligações às bruxas, aos fantasmas maus e à magia negra por a madeira daquele espécie se afundar na água.

Para finalizar o presente artigo, ainda lhes devo explicar de onde vem o hábito particular dos bascos de pedir desculpas ao cortar uma árvore. É-nos possível entender aquele costume graças a uma aldeia chamada Cortézubi que fica a cerca de 40 quilómetros de Bilbau. Foi aqui que uma velha lenda local sobreviveu. A lenda diz que outrora todas as árvores podiam andar e todos os dias chegavam à aldeia para aquecer os habitantes. Um dia, uma rapariga ficou emaranhada nos ramos duma árvore e gritou zangada: «Seria melhor se vocês não continuassem a vir cá!»

A árvore ficou sentida, saiu e nunca mais nenhuma árvore voltou a aparecer na aldeia. Desde aquele dia são os homens que têm de ir buscar a madeira à floresta e, sentindo vergonha por aqueles acontecimentos, continuam a pedir desculpa cada vez que cortam uma árvore.

Bibliografia:

Ruiz Lardizabal, J. 2018, Mity, wierzenia i obyczaje Basków. Pruszków: Oficyna Wydawnicza Rewasz

Foto por Vital Sinkevich no Unsplash

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