8.ª edição do concurso de tradução Poesis ou do mar como um grande concurso

Qualquer concurso é como o mar: um momento de desafio e de imprevisibilidade, em que os participantes-nadadores são largados nas águas revoltas do desconhecido e têm de nadar para chegar à praia com a sua obra na mão, sã e salva. Tal como terá feito Camões, algures no Oceano índico, com o manuscrito da sua obra épica, e que lhe valeu o primeiro lugar no concurso literário subordinado ao tema da fundação da modernidade europeia.


O concurso de tradução Poesis não é diferente e teve a sua 8ª edição em 2026. É um concurso de tradução de poesia de língua portuguesa para polaco, destinado a todos os que estudam e nadam nas águas de língua portuguesa numa Universidade na Polónia.

Neste ano, como continuam a decorrer as comemorações do V centenário do nascimento do poeta Luís de Camões, o concurso Poesis decidiu juntar-se às celebrações daquele que é um dos maiores autores de língua portuguesa (e exímio nadador-salvador de manuscritos).

Porém, como o foco do Poesis recai sobre autores contemporâneos, decidimos optar por um poema que se refere a Camões. Escolhemos o poema “Camões Dirige-se aos seus Contemporâneos” de Jorge de Sena, também ele um dos grandes autores de língua portuguesa — poeta, romancista, tradutor e um profícuo ensaísta, que dedicou grande parte da sua atividade académica a Camões (o poema está disponível na íntegra no final do artigo).

O poema foi escrito em 1961, já durante o período de exílio voluntário de Jorge de Sena no Brasil, e publicado, pela primeira vez, em 1963, em Lisboa, no volume Metamorfoses. O poema escrito em verso branco e livre põe Camões a falar e a anunciar com uma voz portentosa um castigo terrível para todos aqueles que o usurparam — “Podeis roubar-me tudo: (…) / Não importa nada: que o castigo será terrível.”

Camões, que morreu sem publicar a sua obra lírica, comenta assim, com a vantagem do ponto de vista do século XX que lhe dá Jorge de Sena, as invejas e as pilhagens de que a sua obra foi alvo, mas também os abusos das várias edições póstumas da sua poesia que foram incluindo sem critério e, por vezes, sem escrúpulos, obras que não eram de Camões. E, assim, desde 1595, data da primeira recolha da sua obra lírica, o corpus da sua poesia foi engrossando com texto apócrifos, que só a crítica textual do século XX começou a corrigir. Um corpus que, segundo o próprio Jorge de Sena, inclui cerca de 14.000 versos, considerando apenas aquilo que é seguramente da autoria do «príncipe dos poetas». No entanto, não podemos deixar de sentir uma dupla codificação no cruzamento entre as vozes de Camões e Jorge de Sena, uma voz que se insurge contra a opressão do regime do Estado Novo, de Salazar, que também se apropriou da imagem do poeta para fins de propaganda e votou ao silêncio a corajosa dimensão crítica que a obra de Camões contém. Camões surge, pois, no poema de Jorge de Sena, como um ícone de resistência e de perseverança, uma inspiração lembrando que haverá um castigo terrível a aguardar os usurpadores.

Como se pode ver, um poema nada fácil de traduzir, mas que não demoveu vários estudantes de língua portuguesa na Polónia. Deixamos-vos aqui com as três melhores traduções do poema e dirigimos um agradecimento especial à vencedora deste ano, a estudante Aniela Skorupowska, estudante da Universidade de Varsóvia.


1.ª classificada — Aniela Skorupowska


Przestroga Camõesa

Mógłbyś okraść mnie ze wszystkiego:
Z pomysłów, ze słów, z obrazów,
Nawet z metafor, z tematów, z motywów
Z symboli i z pierwszy raz przeżywanego
Bólu, który wiąże się z nowym językiem,
Ze zrozumienia innych, z odwagi
W walce, w osądzaniu, z zagłębiania się
W miłości, która odbiera męskość.
Mógłbyś już o mnie więcej nie wspominać,
Pozbyć się mnie, zignorować, oklaskiwać
Innych złodziei, zadowolony.
Ale nic się nie stanie: a kara
Będzie okrutna. Kiedy już
Twoje wnuki zapomną kim jesteś,
Mnie będą znały lepiej
Niż ciebie, który był tylko naśladowcą,
A wszystko, wszystko, co przywłaszczysz sobie
Powróci do mojego imienia. I znów będzie moje,
Zrobione przeze mnie i będzie moją własnością.
Zagarnę też najmniejszą, najżałośniejszą
Rzecz, którą zrobisz sam, bez okradania mnie.
Nic ci nie pozostanie, nic: nawet kości
Z twojego szkieletu, który, gdy go odnajdą,
Uznają za mój. A tacy jak ty złodzieje,
uklękną przy grobie i złożą kwiaty.



Chamo-me Aniela Skorupowska e sou estudante do 2. ano de estudos portugueses na Universidade de Varsóvia. Durante intercâmbio estudantil no Porto comecei a aprender língua portuguesa e fiquei tão absorvida que, quando regressei, me inscrevi em estudos portugueses. Apesar de estar iniciante na área da tradução, dá-me uma satisfação incrível.


2.º classificado — Łukasz Dziedzic


Camões zwraca się do sobie współczesnych

Możecie ukraść mi wszystko:
idee, słowa, obrazy,
a także metafory, tematy, motywy,
symbole oraz pierwszeństwo
w cierpieniach narodzin nowego języka,
w zrozumieniu drugiego, w odwadze
by walczyć, sądzić, by schodzić
w głąb tajników miłości, gdzie jesteście bezsilni.
Potem możecie mnie nie cytować,
wymazać mnie, przemilczeć mnie, nawet wywyższać
innych złodziei, bardziej zręcznych.
To bez znaczenia: wyrok
będzie nieludzki. Albowiem gdy
wasze wnuki nie będą już wiedzieć, kim byliście,
będą musiały znać mnie lepiej,
niż wy udajecie, że mnie nie znacie,
a wszystko, wszystko, co pieczołowicie rabujecie,
wróci do mnie. I będzie moje,
przypisane mnie, liczone jako moje,
nawet to liche i żałosne,
co, samiutcy, bez kradzieży, zdołalibyście stworzyć.
Nie zostanie wam nic: nawet kości,
bo szczątki wasze zostaną odkopane,
by uchodziły za moje. By inni złodzieje,
tacy jak wy, na kolanach, kwiaty kładli na mym grobie.



Estudante do terceiro ano de licenciatura em Filologia Portuguesa na Universidade Jaguelônica. Dedica-se ao estudo da literatura modernista portuguesa e brasileira, bem como às relações entre a cultura polonesa e a portuguesa, especialmente sob a perspetiva das suas experiências históricas de dependência e periferia. Interessa-se pelas formas como esses condicionamentos se refletem na literatura e no discurso cultural. No plano pessoal, é um apaixonado por futebol.


3.º classificado — Maksymilian Piegdoń


Camões zwraca się do sobie współczesnych

Będziecie mogli odebrać mi wszystko:
myśli, słowa, obrazy,
metafory, tematy, motywy,
symbole, pierwszeństwo
w cierpieniu bóli nowego języka,
w rozumieniu innych, w odwadze
do walki, osądu, do sięgania
sedna miłości, wobec której zwiotczeliście.
I będziecie mogli odmówić mi wpływu,
tłamsić mnie, lekceważyć, hołdować
innym, szczęśliwszym złodziejom.
Nic nie ma znaczenia: kara
będzie straszliwa. Bo skoro tylko
zapomną o was wnuki,
a mnie poznają lepiej,
niż wy udajecie, że mnie nie znacie,
wszystko, co starannie grabicie,
zostanie przywrócone memu imieniu. Będzie też moje,
mi przyznane i przypisane,
to nic, żałosne, którego
sami się dorobicie, nie kradnąc.
Nic po was nie zostanie: ani kości,
gdy rozbiorą wasze szczątki,
by je uznać za moje. I by inni złodzieje,
wam podobni, uklękli złożyć kwiaty na mym grobie.



Poema original de Jorge de Sena


Camões Dirige-Se Aos Seus Contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.


© 1963, Jorge de Sena
Metamorfoses. Edições 70, Lisboa, 1988
(fonte: Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas)


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Leitor de língua e cultura portuguesas do Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, no Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da Universidade de Varsóvia.
Malabarista de palavras e ideias, com uma panca por ficção interativa.

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