Caixa mágica

As crianças têm um incrível poder de imaginação, elas podem mudar suavemente do mundo real para o mundo da fantasia e vice-versa. Elas vivem em ambos os mundos. Estórias sobre duendes, gnomos, bruxas, fadas e princesas tornam-se realidade enquanto brincam. Nós, adultos, deveríamos mais frequentemente encontrar em nós uma criança assim e nos deixar levar pela fantasia. Mas, às vezes, uma crença tão inocente na magia pode causar problemas. Você vai ler sobre um deles no conto abaixo. 

O artigo escolhido vem do número 26 (ano 1938) da revista Mały Przegląd [A Pequena Revisão] escrita por crianças e jovens para crianças sob a supervisão de Janusz Korczak que foi um dos fundadores. Mały Przegląd foi um suplemento gratuito do diário Nasz Przegląd e foi publicado entre 1926 e 1939.

Janusz Korczak, ou seja Henryk Goldszmit, seu nome de verdade foi um polonês de origem judaica. Pediatra, pedagogo, escritor e ativista social. Gostava muito de crianças e por toda sua vida trabalhou com elas e foi um dos precursores que lutou pelos direitos delas. Ele também dirigiu dois orfanatos em Varsóvia — Dom Sierot [tradução em PT] e Nasz Dom [tradução em PT]. Em agosto de 1942, juntamente com seus educandos de Dom Sierot foi levado do gueto de Varsóvia para o campo de concentração de Treblinka, onde foram assassinados. 


Caixa mágica.

Uma história semi-fantasiosa.

Quando eu tinha oito anos, os meus livros preferidos eram os contos mágicos. Ficava horas sentado entre os livros, dos quais conhecia cada palavra, de cor e salteado. A história da Cinderela me fazia chorar de pena e rir de alegria, tanto na décima leitura como na primeira. A qualquer hora do dia ou da noite, eu poderia ouvir os contos das incontáveis aventuras do Pequeno Polegar ou de João e Maria. Eu sonhava com as fadas que apareciam nos meus sonhos e devaneios. Às vezes, deitado na cama com os olhos bem abertos, eu pensava como seria bonito se, de repente, uma fada esbelta de cabelos loiros aparecesse diante de mim e dissesse com uma voz melodiosa:

  — Diga-me menino, quais são seus três maiores desejos. Prometo-te que todos eles serão realizados.

  Quando meus sonhos chegavam nesse ponto, a minha cabeça começava a matutar intensamente. Pois era necessário decidir o que pedir à boa fada. Obviamente, em primeiro lugar, uma nova bola de futebol.  A velha estava furada e meu pai nunca teve dinheiro para uma bola nova. O segundo desejo também era evidente por si só: um monte de chocolate e de bolos com cobertura. E, claro, garantir boas notas na escola! Mas rapidamente cheguei à conclusão de que havia ainda muitas outras coisas que eu não havia incluído nos três desejos. Como: alguns novos selos; para que papai começasse a ganhar mais dinheiro; para que mamãe não adoecesse com tanta frequência… E agora: do que desistir e em que insistir? Após uma hora de reflexão e enrolação na minha cama, cheguei à conclusão de que seria melhor se nenhuma boa fada viesse e me pedisse para expressar meus maiores desejos. Entretanto, isto não significa que nos recantos mais íntimos de minha alma infantil não havia uma crença feroz em gnomos, duendes, elfos e anões.

  Numa certa manhã de verão — isso foi no campo — meus pais saíram para uma excursão, confiando-me aos cuidados da empregada Marcysia. Uma simpática garota, porém, sem nenhuma justificativa, ela decidiu que naquele dia era mais interessante e agradável passar seu tempo com uma amiga que morava na vizinhança, em vez de cuidar de um „fedelho insuportável” e como resultado, eu tive total liberdade de fazer o que queria durante todo o dia. Encantado com esta possibilidade, saí correndo do apartamento sem terminar meu café da manhã — e em frente a varanda, de repente paralisei: diante de mim havia um gnomo, o mais real e o mais autêntico do mundo! Vestindo roupas pobres, com a barba por fazer e sujo, não muito mais alto do que eu. Numa das mãos segurava um pequeno pacote e com a outra, quando me viu, fez algum tipo de movimento como se fosse me saudar ou esconder seu rosto do sol. Eu fiquei tão comovido que não consegui pronunciar uma palavra. Assim, por alguns minutos estivemos frente a frente — eu e o gnomo — se olhando bem de perto. Enfim, perguntei com uma voz trêmula:

  — O senhor é um feiticeiro, não é? Oh, você pode me dizer qualquer coisa, eu não direi nada a ninguém!

  O estranho abriu bem os olhos, deu um passo para trás e coçou a cabeça como se estivesse confuso. Mas, depois de um tempinho seu rosto se iluminou.

  — Mas se sua mãe sair e me ver…

  — Não há ninguém em casa — eu lhe asseguro. — Até Marcysia saiu. Me fala, por favor, quem é o senhor!

  Imediatamente, eu o convidei para sentar-se na varanda, servi-lhe um prato de morangos e depois, sem qualquer dificuldade, o gnomo me confessou que era o príncipe do país de Rosika e que seu nome era Roland. Por muitos anos, nada haveria de impedir-lhe sua felicidade. No entanto, recentemente, a tia dele, a fada Mimosa, decidiu conquistar o seu país. Então, durante a noite, ela o atacou com o seu poder mágico e atiço um feitiço convertendo-o em penas e penugens. Todos os cidadãos de Rosika, aterrorizados pela tia maligna, vieram para o lado dela e escafederam com o antigo rei pelos quatro ventos.

  — E agora — acabou Roland, endireitou orgulhosamente seu pequeno semblante — o propósito da minha vida é voltar para Rosika e recuperar o meu antigo poder.

  Eu o escutava prendendo meu fôlego. Minhas bochechas queimavam de emoção, minhas mãos tremiam. Uma palavra de Roland e eu estaria disposto a segui-lo e ajudá-lo a defender o seu trono. Mas, o gnomo não estava me oferecendo essa oportunidade. Quando não sobrou um único morango sequer no prato que lhe entreguei, ele se levantou do banco e anunciou solenemente:

  — Ouça-me, garoto, você me mostrou mais coração e compreensão do que qualquer homem durante minha jornada até agora. Quero recompensá-lo por isso… Mas precisamos entrar em um quarto para que ninguém possa nos ver…

  Comovido e ansioso, eu levei o convidado para dentro do quarto. Após dar uma rápida olhada em todos os objetos da casa, Roland sentou-se em uma cadeira e lentamente começou a desenrolar seu pequeno pacote. Depois de algum tempo, ele tirou uma pequena caixa. Colocou-a cuidadosamente sobre a mesa e disse-me:

  — Agora, querido menino, deixe-me por alguns minutos. Devo lançar alguns feitiços para tornar o meu presente útil para você. Você deverá voltar quando eu o chamar.

  Assim, após alguns instantes, impacientemente esperando, olhei através do buraco da fechadura, e fiquei surpreso por não ver mais o gnomo na cadeira ao lado da mesa. Finalmente, após mais alguns instantes, ouvi Roland me chamar. Roland estava sentado à mesa, como havia estado quando o deixei, e segurava misteriosa a caixa em suas mãos.

  — Aproxime-se — disse suavemente. — Veja, eu lhe dou a caixa encantada. Qualquer coisa que você desejar, basta inclinar-se sobre ela e sussurrar o seu desejo, e ele se realizará imediatamente. Agora devo ir — acrescentou ele, levando o pacote já amarrado sob o seu braço.

  Encantado, eu olhava para o gnomo. Então agora eu poderei pedir não só os três desejos como imaginei em meus sonhos mais loucos, mas todos os que me vem à mente. É claro que não tinha dúvidas sobre o poder mágico de Roland, mas eu queria experimentar o poder da caixa na sua presença, só por precaução. Mas o gnomo não queria nem me ouvir falar sobre isso.

  — Tal tentativa destruiria tudo! — declarou com firmeza. Ele pressionou o chapéu rasgado sobre suas orelhas, apertou mais forte o pacote e se foi num instante.

  Eu fiquei sozinho. Não largando o precioso presente das minhas mãos, sentei-me na varanda. É claro, meu primeiro pensamento foi tentar o poder mágico da caixa. De acordo com as instruções de Roland, inclinei-me sobre a caixa e depois de pensar por um minuto, sussurrei:

  — Quero uma barra de chocolate meio amargo com nozes!

  A caixa nem cedeu: abri cuidadosamente a tampa. Consegui abri-la sem qualquer dificuldade, revelando-se seu interior sujo. Repeti a tentativa mais uma vez, novamente sem sucesso. Depois de dez minutos eu desisti das nozes, e depois das outras cinco tentativas eu só pedi um biscoito pequeno. Mesmo o doce mais medíocre não sairia. Quando Marcysia retornou de sua visita à vizinha, ela encontrou-me afogando em lágrimas, agarrado à caixa mágica com toda minha força. Ela me encheu de perguntas e é claro, não conseguiu nenhuma resposta de mim. Foi naquele dia que eu deixei de acreditar em magia.

  Por fim, eu esqueceria sobre a coisa mais importante. Quando os meus pais voltaram da excursão, notaram em seguida pela falta do relógio de ouro e algumas outras bugigangas da casa. Eu contei aos meus pais tudo nos menores detalhes. Eles riam tanto que até esqueceram da falta do relógio. E eu me encontrava sentado no canto, todo vermelho, chorando pela perda da minha crença em fantasias… 

Paul Roger

Mały Przegląd: pismo dzieci i młodzieży: 

tygodniowy dodatek bezpłatny do nr 182

„Naszego Przeglądu”. R.13, nr 26 (1 lipca 1938)

Desenho de Ksawery Ruszkowski

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Estudante do terceiro ano dos estudos brasileiros na Universidade de Varsóvia. Desde criança interessada em línguas, apaixonada por música e pole dance.

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