O humor constitui uma ferramenta literária e existencial que permite aos autores mostrar bem as tensões da condição humana. No panorama da literatura e da sabedoria popular, duas figuras destacam-se pela forma como a comicidade molda a sua identidade e a sua relação com o mundo: Dom Quixote de la Mancha, criação do espanhol Miguel de Cervantes, e Nasreddin Hoca (ou Hodja), o herói e sábio do folclore turco. Ao colocar estas duas personagens lado a lado, torna-se possível observar mecanismos humorísticos distintos: um humor trágico e involuntário no fidalgo espanhol, em oposição a um humor analítico e deliberadamente pedagógico no mestre turco.
Em Dom Quixote, o humor nasce do choque inevitável entre o idealismo interno do protagonista e a realidade prosaica e hostil que o rodeia. O fidalgo procura impor os valores dos livros de cavalaria a um mundo que já não comporta deuses nem heróis míticos, o que provoca uma constante “dissonância existencial” característica do homem moderno (Ruiz Jiménez 2025: 19). A comicidade não parte da intenção da personagem. Aos seus próprios olhos, Dom Quixote é um herói autêntico e a sua coragem é real; no entanto, aos olhos da sociedade e do leitor, as suas ações falhadas convertem-no num anti-herói ridículo (Ruiz Jiménez 2025: 55).
O humor na obra de Cervantes afirma-se, assim, através da ironia e da degradação das ilusões. Dom Quixote tenta forçar a realidade exterior a assemelhar-se ao seu modelo heroico interior (Ruiz Jiménez 2025: 46). Quando ele confunde moinhos de vento com gigantes, a hilaridade surge da cegueira voluntária e da sua recusa em aceitar o mundo empírico. O leitor acede a uma perspetiva dupla: compreende a nobreza interior do cavaleiro, mas ri da sua exterioridade extravagante (Ruiz Jiménez 2025: 61). Trata-se de um humor melancólico, onde o sujeito vive no mundo, mas sente-se radicalmente exilado dele (Ruiz Jiménez 2025 19). A loucura serve de veículo para o desfasamento com a realidade, e a ironia estabelece-se como a principal marca da modernidade literária face à epopeia (Ruiz Jiménez 2025: 50).
Por outro lado, a figura de Nasreddin Hoca encarna um tipo de humor completamente distinto. O herói turco atua como o filósofo dos filósofos, e a sua comicidade provém de uma intenção clara de pensamento crítico e analítico (Özdemir 2011: 361). Ao contrário de Dom Quixote, que se isola na sua ficção, Nasreddin insere-se no centro da vida comunitaria, quero dizer, no mercado, na mesquita, no tribunal e tudo isso para questionar normas, preconceitos e hierarquias dogmáticas (Özdemir 2011: 414). O humor de Nasreddin não procura fazer o mundo rir de forma vazia; trata-se de um riso concebido para instigar o pensamento e a autorreflexão (Özdemir 2011: 425).
O símbolo máximo da abordagem de Nasreddin é o ato de montar o seu burro ao contrário. Esta atitude subverte a ordem artificial entre o que é sério e o que não o é, e representa a capacidade de observar o mundo a partir de uma perspetiva oposta ou inesperada (Özdemir 2011: 390). Enquanto Dom Quixote sofre com o desajuste do mundo moderno, Nasreddin domina o absurdo para fins educativos. As suas anedotas recorrem frequentemente a diálogos baseados em perguntas e respostas curtas e incisivas, desenhadas para desarmar o interlocutor e expor a hipocrisia ou a irracionalidade humana (Özdemir 2011: 400). Nasreddin domina as regras do jogo social e utiliza o humor para repor o equilíbrio, a tolerância e a igualdade entre as pessoas (Özdemir 2011: 385).
A análise comparativa revela que ambas as personagens operam na fronteira entre a realidade e o absurdo, mas com diferentes graus de consciência. O fidalgo espanhol é uma vítima da literatura que consumiu; a sua comicidade resulta do fracasso perante um mundo pragmático. Nasreddin Hoca, em contrapartida, é o mestre da situação. Ele manipula a lógica para revelar a verdadeira natureza das coisas, ao usar o riso como uma arma de clarividência. Dom Quixote encarna o humor da inadequação melancólica; Nasreddin Hoca materializa o humor como mecanismo pedagógico e de libertação intelectual.
A tradição humorística alcança dois cumes através destas figuras. Por intermédio de Dom Quixote, o humor expõe a fratura do indivíduo que recusa a realidade; por intermédio de Nasreddin Hoca, o humor oferece à humanidade uma lente corretiva para compreender e melhorar a mesma realidade. Ambas as abordagens, embora opostas na sua génese, demonstram a subversão cómica como uma das formas mais elevadas de filosofia.
Bibliografia
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Özdemir, N. (2011). The Philosopher’s Philosopher Nasreddin Hodja (M. A. Roome, Trad.). Ancara: Republic of Turkey Ministry of Culture and Tourism.
Ruiz Jiménez, J. M. (2025). Don Quijote, héroe para sí mismo, antihéroe ante la sociedad: Pensar la experiencia existencial moderna del Don Quijote de la Mancha desde tres filósofos contemporáneos. Humanidades, n.º 18.
Shah, I. (s.d.). Las ocurrencias del increíble Mulá Nasrudín.
Valbuena de la Fuente, F. (2002). Humor verbal y humor de situación. CIC (Cuadernos de Información y Comunicación), 7, 381-406.
