A música entrelaçada com o folclore: Saci, Iara e Boto

Os três perigos (ilustração de Weronika Owczarek)

O que pensamos sobre a música? “A verdadeira beleza da música é que ela liga as pessoas. Traz uma mensagem, e nós, os músicos, somos os mensageiros.” disse o Roy Ayers, um compositor americano. Sem dúvida estas mensagens fazem grande parte na vida. Através da música podemos aprender sobre o amor, a felicidade, a dor e sobre as dificuldades da vida diária. A música é um maravilhoso instrumento para espalhar histórias entre as pessoas e criar as ligações mencionadas acima. 

O mundo é riquíssimo em vários contos e lendas. Na cultura brasileira não é diferente, elas inspiram escritores, dramaturgos e cantores, para citar alguns. Existem várias personagens que se conhece desde a infância, são histórias dos nossos avós, pais e amigos – a jacaré loira, a sereia belíssima, uma serpente gigante ou o menino  com o chapéu vermelho. Cada uma destas personagens tem a sua própria história e as canções fazem um grande papel mantendo-as na memória.

Uma das personagens mais famosas está na canção “Saci” de Mônica Salmaso:

“Quem vem vindo ali
É um preto retinto e anda nu
Boné cobrindo o pixaim
E pitando um cachimbo de bambu
É o Saci”

Quem é o titular Saci? Saci Pererê é uma das figurinhas mais famosas do folclore brasileiro. É representado como um rapaz negro de uma perna (perdeu a outra durante uma luta de capoeira), usando um gorro vermelho e fumando um cachimbo. Saci é conhecido pelos seus poderes mágicos e por fazer vários truques e travessuras com eles. Crina de cavalo trançada, comida queimada ou açúcar no saleiro são tudo graças ao rapaz. Não admira que ele seja comparado a um diabinho. Segundo a crença tribal do sul, ele vive até 77 anos, e a única maneira de o deter é pegar no seu chapéu e fechá-lo numa garrafa.

Vocês conhecem a Iara? A Maria Betânia na sua canção “Uma Iara / Uma Perigosa Yara” não sem razão chama ela de “a perigosa”. Já no começo podemos ouvir:

“A Iara, a que dorme
Na vitória régia
Ai daquele que cai na tragédia
Da nudeza da sua voz.” 

O nome Iara significa “aquela que mora nas águas”, o que é de facto verdade, já que a mulher na versão mais conhecida da lenda é uma sereia – metade mulher, metade peixe. O que mostra uma clara influência das lendas europeias no lendário brasileiro. Segundo uma história originária dos povos indígenas, Iara era uma mulher de uma beleza extraordinária. Com cabelo preto e comprido, e olhos bonitos. Ela era tão bonita que os seus irmãos decidiram matá-la por ciúmes. Infelizmente, o destino virou-se contra eles e Iara matou-os enquanto se defendia. A jovem fugiu com medo do seu pai, mas ele encontrou-a e decidiu atirá-la ao rio como castigo pelo assassinato. Iara foi salva pelos peixes do rio, que a transformaram numa sereia. Desde então, ela senta-se todos os dias junto ao rio, atraindo os homens e hipnotizando-os com a sua beleza, em resultado da qual perdem frequentemente os sentidos. 

e nós falamos sobre as personagens da água, nesta lista não pode faltar uma canção “Boto namorador” onde a Dona Onete canta sobre “a lenda bonita que alguém me contou, do boto pintado namorador”. A lenda do Boto é uma das lendas inscritas no folclore brasileiro. Todos os anos, no mês de Junho, o Brasil celebra a Festa de São João – o dia em comemoração do nascimento de São João. Neste tempo, são organizadas enormes celebrações onde os brasileiros tocam música, dançam quadrilha ou comem comidas típicas da festa. Acredita-se que todos os anos, na noite deste festival, um jovem aparece nas celebrações, sendo de facto um boto que vive nas águas do rio Amazonas. O mamífero transforma-se num jovem charmoso e muitíssimo bonito, vestido com um terno e um chapéu branco. Acordando com o texto da canção, o homem procura a menina mais bela e solitária da festa, para seduzi-la e levá-la para a praia.

“Esse boto namorador
Saltava nas casas ribeirinha que faziam festa
Dançava a noite inteira e depois ia embora
Deixando todas as mulheres apaixonadas”

A lenda diz que na manhã seguinte ele abandona a moça, transforma-se no animal de novo e foge para o  rio, só para voltar no ano seguinte na véspera do verão. A lenda ainda hoje circula para avisar as meninas dos homens estranhos, ou para explicar a gravidez antes do casamento.

As canções acima mencionadas são apenas uma pequena parte de todos os textos que nos falam de incríveis personagens folclóricos que também conhecemos de livros ou histórias. Hão as sementes de verdade em cada história, por isso da próxima vez que encontrar sal em vez de açúcar no seu chá, pode não o considerar uma coincidência, mas irá lembrar-se da canção sobre o rapaz com o boné vermelho e se for numa festa, tenha atenção ao aparecer um jovem bonito vestido de branco.


Trabalho apresentado à disciplina de Linguagem e a mídia: texto e discurso, ministrada pelo professor Samuel Figueira Cardoso – Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-americanos da Universidade de Varsóvia, semestre de inverno 2021/2022.

SILVA, Daniel Neves. “Saci-pererê”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/folclore/saci-perere.htm. Acesso em 28 de janeiro de 2022.
MENDONÇA, Camila. “Lenda da Iara”; Educa Mais Brasil. Disponível em: https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/artes/lenda-da-iara. Acesso em 28 de janeiro de 2022.
DIANA, Daniela. “Lenda do Boto”; Toda Matéria. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/lenda-do-boto/. Acesso em 28 de janeiro de 2022.

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Estudante do terceiro ano na Licenciatura em Estudos Brasileiros no Instituto de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos da Universidade de Varsóvia. Gosta de pintar em tela, tocar instrumentos e cuidar das plantas.

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